As imagens e os sentimentos sobre a noite de 2 de setembro de 2018 estão marcados na memória do nosso país, e principalmente do nosso corpo social. Poucos conhecem os bastidores dos primeiros dias de comunicação desse momento tão sensível da nossa história recente. Conversamos com a jornalista Fernanda Guedes, naquela época coordenadora do Núcleo de Comunicação e Eventos, sobre as principais estratégias adotadas na gestão de crise para preservar a imagem do Museu Nacional/UFRJ diante da opinião pública. Conheça a seguir:
Harpia — Fernanda, resumidamente, qual era o contexto da comunicação do Museu até o final de agosto de 2018?
Fernanda Guedes — A gente vivia ainda os ecos da celebração pelos 200 anos do Museu, que havia sido um trabalho desafiador em razão da escassez de recursos e pela conjuntura política daquele momento. Mas também vivíamos um novo ânimo: inauguramos novas exposições, reabrimos a sala da baleia que estava fechada há anos, realizamos uma grande festa na Quinta e tínhamos boas perspectivas diante de um financiamento do BNDES, assinado em 6 de junho de 2018. Era como um recomeço não apenas financeiramente (afinal, vínhamos de um histórico de décadas pleiteando recursos para as melhorias na instituição), mas também com novas possibilidades para revalorização da instituição, melhoria e ampliação de suas estruturas e para melhor receber o público. Nossa meta era ambiciosa, captar mais recursos e fazer com que o Museu chegasse a um milhão de visitantes ao ano. Mas nossa equipe era pequena, eu como jornalista e produtora, Eliane Frenkel, produtora, Anna Bayer, designer e Renato Costa também produtor, ambos recém-chegados. Recentemente, havíamos conseguido contratar a Trevo Comunicativa, que começava um trabalho de assessoria de imprensa coordenado por nós. Vale lembrar que vivemos um histórico de décadas, em que diferentes diretorias solicitavam recursos para que se pudesse, inclusive, contar com estrutura de prevenção e combate a incêndios, além da reestruturação e construção de novos prédios que passariam a abrigar o acervo e os laboratórios.
Harpia — E como você ficou sabendo do incêndio?
Fernanda Guedes — Para mim, ainda é difícil falar sobre esse momento, eu estava celebrando com uma amiga a defesa da minha dissertação de mestrado, que havia sido na sexta, dia 31, e que tratava sobre como os grupos de classes populares representavam sua visita ao Museu nas mídias sociais. Quando soube pelo WhatsApp, ao ver a primeira foto do fogo, meu sentimento foi de que tudo havia acabado. A primeira coisa que fiz foi olhar para a televisão porque as emissoras são sempre rápidas com esse tipo de notícia, mas ainda não estava sendo veiculado. Em meio ao choro, peguei o carro e me direcionei imediatamente à Quinta da Boa Vista com a minha amiga, que coincidentemente tinha sido estagiária do Museu, já ligando para o Kellner, Eliane e para uma amiga jornalista em uma TV para saber se eles já estavam cobrindo, além do Márcio Martins, da Trevo Comunicativa. Em poucas palavras, o sentimento que me vem sobre aqueles primeiros momentos é de como se eu tivesse ido a uma festa de um grande amigo, celebrá-lo e, no dia seguinte, estivesse em seu velório. No caso do Museu, o prédio, em ruínas, era como um jazigo de um grande amigo, que eu tive que zelar naqueles momentos.
Harpia — Quais foram suas primeiras decisões?
Fernanda Guedes — Lá na Quinta da Boa Vista, comecei a fazer contatos, posicionar a Direção e já tinham chegado equipes da imprensa. Em dado momento, enquanto as chamas eram controladas pelos bombeiros, fui para a casa da Eliane Frenkel, que mora na Tijuca, e já me reuni com o Márcio remotamente para fazermos a primeira nota oficial e estruturarmos como seria o atendimento à imprensa na manhã seguinte, a partir do que eu vi no local. Ao mesmo tempo, Eliane e eu enviamos os primeiros e-mails, de modo a orientar nosso corpo social sobre como seria a manhã seguinte.
Harpia — E como foi esse primeiro dia?
Fernanda Guedes — Logo pela manhã o reitor da UFRJ naquele período, Roberto Leher, já participou de uma coletiva de imprensa. E assim fizemos uma série de momentos com coletivas e participações em entradas ao vivo, e da mesma forma nos primeiros dias seguintes. Eu tinha perdido todos os meus instrumentos de trabalho, que estavam na minha sala. Meu local de trabalho passou a ser, naqueles dias iniciais, o Jardim Terraço, sem um ponto de luz para carregar meu laptop pessoal, nada. Tudo, então, ficou sendo feito pelo meu celular. A Eliane Frenkel me apoiou no que eu precisasse, logo providenciando o que estava a seu alcance, e especialmente foi essencial seu apoio afetivo. De casa, a Anna Bayer também deu um apoio remoto que foi fundamental, junto com o Renato Costa. Foram dias extremamente difíceis em que, pela falta de estrutura, tínhamos que fazer escolhas, já que não era possível dar conta de toda a demanda de trabalho que se apresentava.
Harpia — Tinham jornalistas de veículos do Brasil e do mundo ali na frente do Museu. Quais as principais medidas adotadas para esse atendimento?
Fernanda Guedes — A principal foi a de dar um tratamento igual para todos os veículos de comunicação, que era uma conduta que eu já adotava na comunicação do Museu ao longo dos anos, dependendo do tema. Evitávamos assim ruídos de comunicação, além de estabelecermos uma relação de confiança com os profissionais. Todas as entrevistas pessoalmente foram concentradas na frente do palácio. Como era mais ágil eu trabalhar do Jardim Terraço com meu celular, logo criamos um grupo de WhatsApp para os jornalistas interessados receberem os comunicados simultaneamente. Meu celular não parava de tocar, e num único dia eu contei mais de 400 ligações atendidas, fora as que eu não consegui dar conta. Muitos jornalistas nos pediam para entrar no palácio, mas precisamos tomar alguns cuidados até chegar a esse momento, para não explorar ainda mais aquela imagem de destruição que já era notória. No primeiro dia, os bombeiros ainda estavam controlando os últimos focos de incêndio e faziam o trabalho de rescaldo, além disso, havia o isolamento pela Polícia Federal para a realização de perícia, e toda a necessária proteção de acervo e da segurança das pessoas.
Harpia — Foram inúmeras solicitações de entrevistas vindas de toda a parte. O que você fez para buscar gerenciar da melhor forma as entrevistas concedidas?
Fernanda Guedes — No gerenciamento de crise, é sempre importante ter o menor número de porta-vozes. É claro que haviam pesquisas que foram afetadas e pesquisadores e estudantes foram acionados diretamente. Mas era importante que cada pessoa que fosse conceder entrevista estivesse ciente e preparada também para as repercussões de suas declarações. Foi essencial cuidar também para que boatos não fossem noticiados, primando por falar o que se tinha certeza até o momento, com alinhamento das informações transmitidas para a imprensa. Então uma das providências iniciais foi solicitar por e-mail e WhatsApp para o corpo social me repassar todas as solicitações para que eu fizesse os filtros, pudesse orientá-los e dar os andamentos necessários.
Harpia — Algumas matérias especiais foram veiculadas. Qual foi a mais marcante nesses primeiros dias para você?
Fernanda Guedes — Eu não tenho como citar uma porque foram inúmeras matérias que contribuíram muito com o Museu, transmitindo a realidade dos fatos. Tivemos especiais da National Geographic, do Caminhos da Reportagem, entre tantas outras. Mas uma delas foi um encontro de histórias e uma curiosa coincidência. A equipe do Fantástico fez uma matéria com crianças assistindo a um videomapping concebido pelo Paulinho Sacramento com ícones do Museu. Eles foram projetados na fachada já no sábado seguinte. Naquela semana, eles entrevistaram a Thereza Baumann, que é uma figura importante que trabalhou na nossa Seção de Museologia , e ela que foi a pessoa escolhida para receber essas crianças para a matéria. Foi emblemático porque, para mim, foi uma celebração da importância da Thereza e do Museu, esses meus grandes amigos de tantos anos. Eu contribuí com a seleção desses ícones, usando imagens que tínhamos do livro sobre o Museu Nacional que foi publicado pelo Banco Safra anos atrás, e no apoio para a produção. Conseguimos também que pessoas do Museu pudessem assistir. O curioso é que para as festividades dos 200 anos do Museu Nacional eu tinha pensado em fazer um videomapping justamente com o Paulinho Sacramento, mas não conseguimos verba. A equipe do Fantástico sequer sabia que já tínhamos pensado nisso. Foi uma coincidência. Não foi no momento e nas circunstâncias que desejávamos, mas o Museu teve essa ação tão bonita nesta primeira semana de reconstrução.
Não posso deixar de citar também o documentário produzido pela UFRJ, dirigido pelo Zhai Sichen e que foi, para mim, uma batalha pessoal para que acontecesse, já que a Universidade carecia de estrutura para dar andamento a esse projeto. Nós queríamos que os registros tivessem começado ainda pouco tempo depois do incêndio, mas só foi possível mais adiante, com o início do trabalho de resgate e o resultado não poderia ter sido diferente, uma produção sensível e verdadeira, que fez um recorte histórico sobre aquele momento.
Harpia — Você ficou nos primeiros dias trabalhando diretamente da frente do palácio, intensivamente. Quando essa intensidade começou a diminuir?
Fernanda Guedes — Um dia eu estava numa ligação com um repórter do Estadão e ele comentou que achava que o ritmo das solicitações da imprensa para mim iria diminuir. Quando perguntei o motivo, ele me informou que um dos candidatos à Presidência da República tinha acabado de levar uma facada. E realmente foi assim. Continuei atendendo às solicitações daquela semana, mas já pude buscar um espaço para trabalhar no Horto. Inicialmente, ficamos num pequeno espaço da garagem e eventualmente usando a sala da SAMN, da professora Vera Huszar e de quem mais nos acolhesse.
Harpia — Você comentou sobre as solicitações da imprensa para fazer imagens no interior do Museu. Quando isso foi possível?
Fernanda Guedes — Continuamos adotando que todos os novos anúncios fossem dados para a imprensa simultaneamente, por meio de coletivas. Com isso, evitamos ruídos e conseguimos massificar as informações corretas. Antes desse momento de entrada no palácio, quando a equipe de Resgate encontrou Luzia, fizemos uma coletiva que foi muito emblemática porque era algo esperado por todos e que foi uma “virada de chave” que precisávamos, um sopro de esperança em meio a tudo o que tínhamos vivido até então. Naquele momento, ainda sem estrutura, usamos o auditório do atual BioParque para o anúncio. Foi somente meses depois que conseguimos levar a imprensa com segurança para dentro do palácio, com todo um roteiro especial montado e as coordenadoras do Resgate recepcionando e respondendo à imprensa. Naquele momento, já tínhamos informações sobre as áreas trabalhadas dados sobre parte das peças resgatadas. Foi um verdadeiro evento receber as diversas equipes dos veículos de comunicação, credenciamos cerca de 100 profissionais, que receberam orientações de segurança e fizeram uso dos EPI. Um trabalho conjunto com a administração e a equipe de Resgate. Contamos também com a contribuição da empresa que fez a estrutura de cobertura do palácio para proteger o prédio e o acervo nessa ação voltada para receber a imprensa no Museu.
Harpia — Ao mesmo tempo, além do atendimento à imprensa, você participava de todas as frentes ligadas à comunicação e eventos. Lembro que você sempre cuidava para as respostas ao público nas redes sociais serem completas, buscando o diálogo. Como foi nesse momento tão intenso?
Fernanda Guedes — Vejo que foi um grande privilégio receber ali nas mensagens privadas e nos comentários abertos nas redes do Museu todo o carinho do público. Eles queriam nos ajudar de tantas formas, que era como um abraço para nós. Da mesma forma, como foi para mim muito bonito um gesto de um grupo com milhares de secundaristas que conseguiu entrar na Quinta da Boa Vista na tarde de 3 de setembro, demonstrando apoio a todos nós do Museu. A Quinta tinha sido fechada e a gente que estava ali na frente do Museu não imaginava o que estava acontecendo lá fora, com uma multidão formada. De repente, as pessoas conseguiram entrar. Todos estávamos olhando para o palácio com suas marcas do incêndio e, de repente, todos nós voltamos nosso olhar para a direção da Alameda das Sapucaias e os secundaristas chegando na frente dos diferentes grupos, puxando um coro com palavras de apoio. Foi uma cena muito emocionante.
Harpia — Que bonito… Falando nisso, de todas as manifestações espontâneas logo tinha surgido um slogan sobre o luto do Museu e você criou o nome da campanha Museu Nacional Vive, que até hoje é usada no Festival, em projetos e outras iniciativas relacionadas à reconstrução. Como foi a escolha desse nome?
Fernanda Guedes — Era importante mostrar para todos que, apesar de tudo, apesar de toda a perda, o corpo social continuava com suas atividades de ensino, pesquisa e extensão. Nada parou nenhum dia, só foram feitas adaptações. As pessoas que fazem o Museu continuavam atuantes, ainda tínhamos também acervos que já estavam em outros prédios… Então, eu pensei em Museu Nacional Vive porque viver é verbo, uma ação em curso, pulsante; nós passávamos pelo luto, mas era a força coletiva, viva que impulsionava e transmitia a vontade pela reconstrução e o esforço e a garra de todas as pessoas ali em plena atividade. Isso foi criado já nos primeiros dias, eu passei para a designer Anna Bayer, ela foi para a casa dela e desenvolveu o logotipo. Imediatamente, lançamos a campanha. Se não me engano enviamos no dia 12 de setembro para todo o corpo social a arte e também com aplicação em PowerPoint editável para ser usado nas apresentações, lembro que a Valéria da Coordenação de Extensão conseguiu doação de adesivos para colocarmos a marca. E no mesmo mês, através de mais um esforço coletivo, fizemos o Festival Museu Nacional Vive. A meta era conseguirmos criar outros produtos, como bottons e camisetas, que vieram mais adiante.
Harpia — Esse nome realmente é ótimo. Estamos nesta edição do Harpia com uma matéria dedicada à história do Festival. E, Fernanda, para concluir, qual é o significado do Museu Nacional em sua vida e suas expectativas para o futuro da instituição?
Fernanda Guedes — O Museu Nacional é parte da minha história. É meu amigo querido, minha segunda casa por tantos anos, um lugar de afeto, onde cresci profissionalmente e vivi momentos especiais. É impossível eu falar da minha vida sem mencionar o Museu. Sou grata por fazer parte de sua história e espero que ele retome sua missão de alcançar as classes populares, mantendo seu papel como um museu acessível a todos e todas. O Museu Nacional ocupa um lugar especial na sociedade brasileira e precisa reabrir suas portas promovendo diálogos, sendo um lugar de trocas e de vivências para diferentes formas de conhecimento, seja popular ou científico.
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