
Com uma das profissões mais raras do planeta, Antonio Carlos Amâncio é especialista em osteomontagem. Foi ele o responsável pela nossa aquisição e montagem do esqueleto da baleia-cachalote, que está em exposição na Cidade das Artes. Nascido no Ceará, chegou a ser salva-vidas e servente de pedreiro. Hoje é biólogo, se especializando e criando técnicas para deixar os esqueletos o mais próximo possível do real. Nesta entrevista ao Harpia, ele afirma: “O Museu Nacional é uma janela para o mundo”. E ele já está vivenciando isso. Conheça os detalhes a seguir:
Harpia – Quando foi iniciado seu contato com o Museu Nacional/UFRJ?
Amâncio – O primeiro contato foi no início de 2018 com o Marcos Raposo, que me convidou para ir ao Museu e avaliar os esqueletos que tinham na época, como uma jubarte e um elefante. A ideia era para fazer um trabalho de restauração, mas, por questões internas, isso foi adiado. E tudo começou por uma indicação da ONG Aquasis, onde trabalhei durante 20 anos no Ceará, fazendo resgate de mamíferos marinhos e sendo curador de coleção osteológica.
Harpia – A chegada até a cachalote, que está hoje na Cidade das Artes, é uma história e tanto. Você poderia contá-la brevemente para quem ainda não a conhece?
Amâncio – A história é bem complexa e vou buscar resumi-la. O Museu Nacional nos pediu uma baleia-cachalote e uma jubarte. Existia um exemplar de cachalote que eu enterrei a carcaça, em 2017, na Praia do Barro Preto, em Aquiraz, no Ceará. Elaboramos uma proposta em conjunto com algumas instituições. Até então, eu imaginava que soubesse o ponto exato e o Kellner foi acompanhar de perto esse desenterro. Mas, após oito horas de trabalho com maquinário pesado, nos contaram que o esqueleto não estava mais lá, que três dias após o enterro, uma maré grande o levou. Então, precisaríamos de outro exemplar. Na hora, tive uma ideia, passei para o Kellner e ele topou.
Harpia – E qual foi essa ideia?
Amâncio – Conheço de perto os pontos com carcaças de baleias enterradas, muitas delas eu mesmo tendo sido o responsável pelo enterro, então sugeri a articulação de trocas para que o Museu Nacional ficasse com essa cachalote de quase 16 metros. Cabe ressaltar que, em 2010, encalhou uma jubarte viva na Praia de Bitupitá, em Barroquinha, e isso gerou uma grande comoção. Como tinha sido enterrada muito próxima da comunidade, não permitiram a permanência por conta do mau cheiro. Na remoção, o esqueleto foi todo quebrado e infelizmente não tivemos como salvaguardá-lo. Então, a comunidade tinha essa história de grande ligação já com uma jubarte e o desejo de ter um esqueleto para um futuro museu. E era justamente ali que tinha enterrada essa baleia-cachalote. Lembrei dessa importância para a comunidade em ter um esqueleto de jubarte, e existia um esqueleto de jubarte enterrado no município de Trairi, que estava prometido para compor o acervo do Museu de História Natural do Ceará Professor Dias da Rocha, que fica em Pacoti. Como eles são parceiros do Museu Nacional, aceitaram a proposta de cedê-lo para as articulações e trocas necessárias, deixando todos satisfeitos e tranquilos sobre isso. Então, agendei para o dia seguinte uma reunião com o prefeito de Barroquinha, que é o município onde nasci.
Harpia – E como foi?
Amâncio – Pela manhã, o Kellner, a Renata Stopiglia, o professor Eddy e eu pegamos a estrada e percorremos quase 500 quilômetros até chegar à Barroquinha, na divisa com o Piauí. Fomos recebidos no gabinete do prefeito, o professor Ademar, e ele topou iniciarmos o processo com uma audiência pública. Elaboramos um projeto para ser apresentado para a comunidade, que aceitou a troca. Tudo foi muito bem articulado. A ideia era fazer esse trabalho em maio de 2020, mas estourou a pandemia e ficamos quase um ano parados. Então, somente em dezembro de 2021 é que conseguimos executar o trabalho de desenterro da carcaça do cachalote na comunidade de Curimãs, em Barroquinha. Antes disso, cheguei com o esqueleto da jubarte, mostrando que o Museu Nacional cumpriu a parte de vocês. Assim, deixamos todos tranquilos para a liberação da carcaça de cachalote. E agora temos esse maravilhoso exemplar na Cidade das Artes e a comunidade está com a jubarte, que é a espécie de baleia que tem uma forte ligação afetiva com os moradores. Todos ficaram, por fim, com o que desejavam de fato.
Harpia – Esse tipo de articulação é realmente muito importante… Agora, gostaria que você nos contasse como foi a osteomontagem na Cidade das Artes.
Amâncio – Antes de chegar à Cidade das Artes, o esqueleto passou pelo processo de higienização e clareamento. Ele tinha absorvido muito pigmento nos seis anos que estava enterrado. Quando o material estava pronto, ele foi montado num total de 46 dias, divididos em duas etapas.
Harpia – Qual foi o maior desafio nessa osteomontagem?
Amâncio – Esse foi o maior animal que já montei nestes 20 anos de trabalho, com 15,7 metros. Até então era aquela jubarte que fica na entrada do AquaRio, que montei em 2016, com 14,6 metros. O principal desafio foi entrar com o crânio na Cidade das Artes. Eu e o professor Kellner medimos várias vezes a porta de entrada, que tem 1,62m. Só que o crânio tem 1,58m de largura com 600 quilos. Passou e subimos com ele até o terceiro andar com uma maca adaptada com tubos de ferro, reunindo 16 homens. Depois disso, eu pensei: “Pronto: agora a baleia tem que ser montada aqui!”. Passei por outros desafios enormes com o bicho tão pesado, mas deu tudo certo.
Harpia – O que você sentiu no dia da inauguração, vendo aquele esqueleto tão bonito ali, fruto das suas articulações e trabalho?
Amâncio – Confesso que muitas vezes eu me surpreendo pela capacidade que me é dada por Deus para executar um trabalho como esse. Executei praticamente 80% sozinho o trabalho de osteomontagem na Cidade das Artes, até pela questão da pandemia. Praticamente, morei lá em todo esse processo, ficando 24 horas no espaço. Lembro que voltava após o jantar para observar sozinho, numa escuridão praticamente total e, às vezes, eu ficava em dúvida se eu iria conseguir mesmo. Então, ao vê-lo ali pronto e em exposição, com as pessoas contemplando, senti uma chama viva no meu coração, porque temos a perspectiva de remontá-lo no Museu Nacional, que será quando a missão realmente estará cumprida. Será o momento que vou levar a minha família para participar e comemorar isso comigo. Aí sim, será uma emoção única e quero viver para isso.

Harpia – Além da baleia, você está montando outros animais no Museu Nacional/UFRJ. Quais são ?
Amâncio – Até agora, foram três exemplares, incluindo o leão-marinho, que foi doado pelo zoológico de São Paulo, e o peixe-boi-marinho, doado pela ONG Aquasis, que trabalha com esse bicho aqui no Ceará. Uma curiosidade é que eu cheguei a alimentar com sardinha esse leão-marinho anos atrás no Aquário Marinho de Santos, durante uma visita técnica. E a professora Renata Stopiglia, do Departamento de Vertebrados, está conduzindo comigo quais serão os próximos, já tendo uma lista de exemplares de médio e grande portes. Fico muito feliz por hoje estar prestando esse tipo de serviço para o Museu Nacional, ouvir os elogios desses cientistas fantásticos, que entendem do assunto e de sua complexidade. Vai muito além da remuneração pelo o que faço, que claro é muito importante, mas nenhum dinheiro do mundo pagaria essa emoção que eu sinto pelos reconhecimentos dessas pessoas. Sem falar que, através deles, conheci o professor Nuno Ferrand do Museu de História Natural e da Ciência da Universidade do Porto, e estamos negociando para eu ir montar esqueletos lá em Portugal e em Angola.

Harpia – Que máximo! Imagino como a sua família deva estar orgulhosa de todas essas conquistas porque sua história é muito bonita. De servente de pedreiro no início da vida, você foi estudando, se especializando em osteomontagem, dando passos largos e mudando de vida…
Amâncio – Estão realmente muito radiantes e o meu filho mais velho, o Caliel, irá comigo em setembro para Portugal para uma visita técnica de reconhecimento para já estar envolvido desde o início. Ele tem hoje 19 anos e já trabalha comigo. Esse é um passo que jamais eu tinha imaginado na minha vida, décadas atrás. É possível colher agora toda a dedicação de tempo e estudos em Biologia, em ter aproveitado as oportunidades na ONG Aquasis, em aprofundar meus conhecimentos de anatomia de cada bicho para usar a osteomontagem para deixá-lo com uma aparência da estrutura o mais fidedigna possível a como ele era quando estava vivo, sempre destacando a beleza de cada esqueleto. Todos esses anos de trabalho e estudos foram com muito afinco, aperfeiçoando dia a dia. Sem falar na aceitação e no reconhecimento desse dom que recebi de Deus, que faço muita questão de enfatizar. Para você ter uma ideia, a agenda coincidiu para eu ir ao Rio montar o peixe-boi, na mesma época da inauguração da exposição da baleia na Cidade das Artes, no mesmo momento que o Nuno estava no Rio. Até então, eles contratavam empresas da Dinamarca e da Espanha, por exemplo, e ele considerou a qualidade do meu trabalho semelhante. E o meu pagamento será todo em euro. Até 2023, eu não tenho mais agenda. Isso me deixa muito feliz e grato porque o Museu Nacional é uma janela para o mundo. Estou num momento muito mágico da minha vida!
Saiba mais:
Leia matéria do G1: Cearense que monta ossadas animais tem uma das profissões mais raras do mundo
Exposição ‘Que Baleia é Essa?’ – Visite na Cidade das Artes e acesse suas curiosidades no nosso site.