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Priscila Magalhães e a paixão por difundir a vida das lesmas marinhas

Todo mundo começa a se encantar pelas conchas na praia já na infância. Comigo também foi assim. Mas a oportunidade de pesquisar os moluscos marinhos surgiu quase que por acaso durante um estágio na minha graduação. E sigo imersa nesse universo, agora, no doutorado no Museu Nacional/UFRJ. Sempre gosto de destacar que decidi ser bióloga porque tive a sorte de ter professores maravilhosos que me influenciaram, mostrando que eu poderia ser o que eu quisesse, inclusive ser uma cientista.

E é por saber dessa importância do acesso à ciência que gosto tanto de compartilhar meus conhecimentos científicos com as pessoas. Acho incrível poder aproximá-las das conchas mais vistosas, de instigá-las a imaginar o tamanho dos bichos que viviam ali e mostrar as imagens tão lindas de como eles e outros bichos são, quando estão no mar.

Tenda Científica nas celebrações dos 205 anos do Museu. Crédito: professor Vinícius Padula (Setor de Malacologia)

Uma dessas oportunidades especiais foi na festa dos 205 anos do Museu! Eu sou a primeira geração com curso superior na minha família e que está seguindo com os estudos. Então, foi muito especial recebê-los com a equipe do Setor de Malacologia, mostrando um pouco sobre o que eu pesquiso, sendo uma oportunidade para eles entenderem melhor a minha necessidade de tempo para me dedicar ao que eu faço.

Fiquei realmente feliz em observar essas diferentes gerações da minha família ali, com suas percepções tão próprias: minha avó Sueli, meus pais, Luiz e Cristina, minha madrinha Lídia e minha irmã Sofia. Percebi que eles ficaram encantados e orgulhosos. A minha irmã ficou bem entusiasmada, tocando em tudo, perguntando e fazendo suas próprias descobertas. Quem sabe ela será a próxima bióloga da família?! Fiz questão de levá-los para conhecer também o que meus colegas de outras áreas estavam apresentando.

Equipe de Nudibranchia da Malacologia

Sempre que eu posso, eu participo das atividades de extensão, porque me sinto muito bem ao contribuir para que mais e mais pessoas tenham acesso ao que estudamos e, quem sabe, também se inspirem! Desde os meus primeiros contatos com as pesquisas do Museu, comecei a participar desse tipo de atividade em diferentes espaços, acompanhando o Setor de Malacologia junto aos demais setores.

Da mesma forma, me sinto muito bem ministrando palestras, minicursos e todas as formas de contato com o público. Um dia desses dei a minha primeira aula. Fui pra lá com uma sensação de que eu não sabia tudo o que eu deveria saber, mas tudo fluiu bem no final. Alguns estudantes elogiaram e disseram que eu falava muito bem, que a aula tinha sido ótima. Aí, eu fiquei super satisfeita! Bateu aquele orgulho e falei: “caramba, eu consegui”!

Palestra na UNIRIO
O início da minha história por aqui

O Vinícius Padula é o meu orientador e nos conhecemos quando ele participou da minha banca na graduação na UNIRIO, em 2018. Nessa época, ele tinha acabado de ingressar no Museu. Eu ainda não o conhecia. Após a defesa, ele me perguntou sobre o meu interesse em dar continuidade às pesquisas nessa área, e falou sobre a possibilidade de me inscrever no mestrado no Museu Nacional.

Adorei a ideia porque eu já tinha tido contato com coleções daqui durante meu estágio na UNIRIO. Participei do processo seletivo e fui a primeira estudante dele aqui no Museu, em 2019.2, assim que ele concluiu suas contribuições na equipe de Resgate do Acervo do Paço de São Cristóvão. Minha pesquisa teve como base nudibrânquios, que são lesmas marinhas, que ele já tinha coletado em Cabo Frio, mas ainda não tinha depositado no Museu e trabalhamos com algumas espécies muito parecidas, que chamamos de complexo de espécies.

Trabalho de campo em Cabo Frio

Resumidamente, uma das ideias era saber se o exemplar encontrado aqui era ou não uma nova espécie, porque era muito parecida com espécies que ocorrem em outros lugares do mundo, além de resolver algumas outras questões. Os resultados vão ser publicados em breve e adianto que um nome científico será uma homenagem a uma pessoa muito especial na minha vida. Quem será?!

Dia especial!

Posso dizer que ter concluído o mestrado foi um grande alívio, eu chorei muito, após desligar a câmera da apresentação on-line. Foi muito especial contar com as melhores energias da minha família e dos meus amigos que estiveram ali comigo, me dando a força que eu precisava. Esse alívio de ter conseguido é inesquecível, porque foi bem no início do mestrado que estourou a pandemia e eu senti tanto medo. Acho que ninguém ficou completamente bem. Mas, além de todas as informações desencontradas no início, fiquei bem preocupada por saber que as pessoas com diabetes eram do grupo de maior risco de morte e eu tenho diabetes. Foi um alívio também concluir o mestrado e perceber que deu tudo certo, que valeu a pena cada esforço!  E esse alívio vem de longa data, porque iniciei a graduação na Celso Lisboa e, depois de um tempo, mudei para a UNIRIO, então acabei ficando praticamente 7 anos só na graduação, incluindo o período de transferência. Não foram fáceis esses anos, mas a sensação, quando me tornei mestre foi a de perceber que eu estava realizando um sonho, que fiz o que foi possível naquele momento, e que estava pronta para novos desafios!

Comemoração da defesa de mestrado com a equipe

Para o doutorado, gosto de dizer que eu e o Vinícius renovamos nossos votos para seguir mais quatro anos juntos nas pesquisas! Agora, os estudos são sobre outro grupo de lesmas marinhas, chamado Sacoglossa, que são tão lindas quanto os nudibrânquios. Elas são herbívoras, se alimentando de algas. E estamos trabalhando uma área de distribuição maior, fazendo um levantamento das espécies que ocorrem na costa brasileira. Então, para as coletas, estamos contando com uma série de parceiros, além de materiais de outras coleções.

Trabalho de campo em Cabo Frio, em 2019
‘Um amor muito grande’

Quando eu estava no Ensino Médio, tinha o sonho de estudar na UFRJ. Sempre achei o Museu Nacional/UFRJ incrível, me encantando nas vezes que fui visitar as exposições, mas ainda desconhecia a parte de pós-graduação. Estar aqui e fazer parte do corpo discente, para mim, é uma vitória pessoal muito grande, viu? Sinto orgulho quando conto em qualquer lugar que sou daqui. Ao longo desses anos, fui desenvolvendo um amor muito grande e este lugar é a minha segunda casa. Finalmente, me sinto pertencendo a esse lugar, principalmente porque temos uma equipe muito unida.

Direto do túnel do tempo: Priscila com os pais e a irmã em sua formatura de graduação na UNIRIO

Espero que o Paço de São Cristóvão, sede das exposições do Museu Nacional/UFRJ, em primeiro lugar, continue de pé! E que ninguém esqueça qual é a essência do Museu Nacional, que tem toda a sua relevância histórica e de pioneirismo nas pesquisas, e que é importante que o público tenha contato com um acervo expositivo original. Que ele nos traga nostalgia, de uma maneira atualizada, obviamente. Mas que não seja um museu só com recursos de alta tecnologia, parecendo um museu sobre o futuro, até porque já temos um na cidade do Rio. Desejo que cada um de nós zele pelo Museu, mantendo toda pesquisa, ensino e extensão com esse histórico de destaque que temos. Finalizo aqui com uma mensagem que o professor Vinícius Padula sempre fala pra gente: procure se divertir enquanto trabalha, porque isso deixa tudo mais leve. Realmente, percebo que é assim que conseguimos focar mais nas soluções do que nos problemas, diante das pressões da vida acadêmica, concorda?

O Museu Nacional vive!!!

Priscila Magalhães

Doutoranda do Programa de Pós-Graduação em Zoologia (PPGZoo), pesquisando no Setor de Malacologia do Museu Nacional/UFRJ.

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