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Moacir Palmeira e suas reflexões diversas no Museu e pelo mundo

Sempre vi o Museu Nacional como mais do que apenas um edifício histórico. Para mim, a convivência nesse espaço favorece as descobertas e o aprofundamento de reflexões com estudantes e colegas. Mesmo ao percorrer os corredores e jardins, é natural ter conversas que revelam curiosidades sobre estudos desenvolvidos em diferentes partes do mundo, abrangendo diversas áreas do conhecimento. Estou aqui há cinco décadas e as trocas são enriquecedoras.

Professor Moacir Palmeira no Seminário do PPGAS em sua homenagem pelas cinco décadas de pesquisas. Créditos: Diogo Vasconcellos (MN/UFRJ)

Essa interação tão própria do Museu Nacional proporciona um sentimento como fôssemos uma grande família. Achei até engraçado quando soube que alguns estudantes se autodenominam “Palmeirex”, como uma forma carinhosa de se referirem aos nossos estudos e reflexões sucessivas. Imagino que essa conexão também ocorra com outras pessoas nos diferentes setores. O ambiente do Museu favorece esse tipo de coisa.

Primórdios da minha chegada ao PPGAS

Desde que conheci o Otávio Velho, durante a graduação em Ciências Políticas e Sociais na PUC-Rio, nos tornamos muito próximos e mantivemos um diálogo intelectual intenso. Inclusive, fazíamos parte de um grupo muito afinado intelectualmente, com preocupações políticas semelhantes. Trabalhamos juntos no Centro Latino-Americano de Ciências Sociais, em Botafogo, um espaço que ampliou consideravelmente meus contatos com intelectuais de diferentes partes do mundo, alguns dos quais passaram a fazer parte das pesquisas do PPGAS ao longo dessas décadas. Fui pesquisar na França até por uma sugestão do Manoel Diégues Junior, que tive uma forte ligação com ele, lendo as obras dele e até escrevi prefácio em um dos livros dele. Ao longo da minha trajetória profissional, participei de muitas redes de contato, pesquisando, dando aulas e trabalhando em diferentes instituições.

Enquanto eu estava na França, no final da década de 1960, o Otávio teve seus primeiros contatos com o Roberto Cardoso de Oliveira. Ele me contou em nossas trocas de correspondências sobre a organização de um programa de pós-graduação no Museu e de ter mencionado o doutorado que eu estava fazendo na Université René Descartes. A primeira turma do PPGAS começou em 1968. A minha tese de doutorado até estava prevista para essa época, mas só consegui defende-la em 1971, porque tive algumas questões pessoais, como a decisão de retornar ao Brasil para ficar com meu pai, que estava com câncer terminal.

Seminário PPGAS, intitulado “Da ‘Plantation’ à Política: Cinco Décadas de Pesquisas – Homenagem ao Professor Moacir Palmeira”, Créditos: Diogo Vasconcellos

Nessa época, eu estava interessado em pesquisas sobre a área rural com possibilidade de estudos internacionais e voltar para fazer pesquisas no Nordeste. E o Roberto Cardoso me convidou para participar do projeto “Estudo Comparativo de Desenvolvimento Regional”, em parceria com Maybury-Lewis, de Harvard. Realizamos um estudo comparativo entre regiões e ele me pediu para coordenar a região nordeste, que foi a área de colonização mais antiga do Brasil. Comparamos com o norte e o centro-oeste, que eram áreas mais recentes. O Otávio Velho também estava envolvido, e Francisca Keller coordenou as pesquisas do Brasil central.

Isso abriu outras pesquisas e possibilidades de trabalho, inclusive, quando fiquei na zona da mata de Pernambuco, fiz contatos com lideranças sindicais que estavam se reconstruindo. Em certo momento, me afastei de projeto de pesquisa e fiquei motivado a entrar na Confederação Nacional dos Trabalhadores na Agricultura, a Contag. Enfim, trabalhei em diversos lugares.

Depois, retomei a área de pesquisa e algumas pessoas acabaram sendo orientadas por mim, sendo criada uma equipe de pesquisadores, incluindo alguns em estágios mais avançados de pesquisas e outros iniciantes. Foi uma coisa que estava integrada a um grupo de pesquisadores e assim foram surgindo novas possibilidades. No próprio Centro Latino-Americano tinha uma sala onde ficamos quatro pesquisadores, tendo também certas aulas de pessoas que vinham do exterior. Eu era pago com recursos que vinham do exterior, mesmo eu ainda não tendo vínculo com o Museu Nacional. Até que, em determinado momento, fui conhecendo as pessoas do Museu e comecei a trabalhar no próprio Museu. Isso se deu naturalmente ao longo da rede de contatos e das relações que fomos estabelecendo. Nesse início, eu tinha contato com professores como o Castro Faria e fui dando aulas no Programa. Alguns pesquisadores foram para Brasília quando o Roberto Cardoso foi para lá e eu e outros pesquisadores fomos dando nossas contribuições ao PPGAS. Com o tempo, houve uma movimentação para a própria Universidade me contratar como professor.

Sempre gostei de ampliar as minhas possibilidades de estudos. No Museu, conheci mais a linguística e, tempos depois, segui alguns cursos também na Universidade em Londres. E, assim, vamos estabelecendo relações com alguns conhecidos e outros ainda não. Além das pesquisas na área das ciências sociais, sempre me interessei pelo o que meus colegas do Museu estavam desenvolvendo. Lembro que, numa conversa, o pessoal que trabalha com animas na extremidade Sul estava me relando suas pesquisas e sempre apontava se não seria legal olhar para essa região. Eu mesmo algumas vezes, também fui dar aulas na Argentina e dentro dessas referências que eu estava estudando e trabalhando as ciências sociais de forma ampla e também me interessando por outras áreas.

O professor Moacir com sua companheira Lígia Dabul, professora da UFF

São cinco décadas de trabalho e diversas experiências interessantes. De vez em quando a gente ia dar uma força em universidades diferentes como a Universidade Federal de Minas Gerais, da Bahia e de Pernambuco, onde eram feitos acertos com o PPGAS. Vale destacar que, por volta dos anos 1990, fizemos pesquisas envolvendo um grupo grande de pesquisadores e formamos o Núcleo de Antropologia da Política, reunindo pessoas de universidades de diferentes partes. Isso foi caminhando e, em certo momento, realizamos um outro tipo de pesquisa, diferente da proposta inicial. Com o tempo, esse Núcleo foi ampliando para núcleos locais. Isso somou em certo momento mais trabalho e mais gente trabalhando junto. Foi muito bom, mas um trabalho intenso. Criamos uma rede que, volta e meia, fazemos uma espécie de congresso, e sempre tendo uma abertura para contatos com o exterior, com referências interessadas em fazer pesquisas no Brasil. Eu também fui para diferentes países como a Holanda, Portugal, Espanha. Quer dizer, essa coisa está tendo resultados. Há pessoas novas que é legal conversar com elas, mas neste momento não tenho como tocar pesquisas com todas elas ou participar de congressos internacionais, principalmente depois da pandemia.

Imprevistos recentes

Acumulei um material de pesquisa diversificado. Com o incêndio, perdi meus livros e documentos originais que estavam na minha sala, além de tudo o que estava no computador. Isso complicou a minha vida para a atividade regular de pesquisas. Desse material, o José Sérgio do Centro Brasileiro de Altos Estudos já tinha antes organizado uma documentação enorme com arquivos filmados e fotografados de cópias que eu tinha. São documentos com valor histórico e está tudo bem organizado por ele e um colega. Mesmo após 2018, continuei disponibilizando para ele. Foi complicado ter perdido os originais e ficar sem minha sala no palácio. Com o tempo, ganhamos espaço em sala na Presidente Vargas e ficamos um tempo por lá. Agora, existe a possibilidade de voltar a trabalhar no quarto andar do prédio da Biblioteca Central. Em 2019, eu fiquei internado com complicações de saúde. Quando saí de lá, ainda fiquei um mês em casa me recuperando, e veio essa história da pandemia que complicou mais ainda. A minha companheira Lígia Dabul sugeriu da gente ficar em Friburgo um tempo, numa espécie de fazenda agradável para caminhar, descansar e trabalhar pela internet, dando aulas de lá. Evidentemente, isso muda o que a gente estava planejando no período e tem sido uma mudança grande. Depois, a coisa estava mais favorável com a pandemia, mas completei 80 anos em dezembro de 2022 e estou tendo algumas dificuldades de saúde. Hoje, não estou com nenhum cargo, mas participando de alguma forma de novas frentes de pesquisa e envolvendo pesquisadores com experiências diversas. Claro que não dá para acompanhar mais tudo de perto, mas estou contribuindo com orientações que já estavam em andamento.

Infância e juventude transpirando política e vida intelectual

Nasci em dezembro de 1942, em Alagoas. Tenho lembranças de visitar o Museu Nacional e passear pela Quinta da Boa Vista na minha infância no Rio de Janeiro, quando morávamos em Copacabana. Essa nossa mudança para cá foi motivada pela intensa vida política do meu pai, Rui Soares Palmeira, que, por vezes, precisou se esconder para se proteger de perseguições políticas. A atmosfera não era adequada para a nossa infância, então meu avô materno, Inácio Gracindo, que foi juiz de direito, professor da Faculdade de Direito de Alagoas e deputado, sugeriu que nos mudássemos. Minha mãe, Maria Gaby Gracindo Soares Palmeira, era dona de casa e cuidava da gente, seus seis filhos.

Vale ressaltar que minha escolha pelas Ciências Sociais está diretamente relacionada à minha família, especialmente, ao meu pai, que foi advogado, jornalista e político. Ele tinha uma intensa atividade intelectual e tinha amigos como Graciliano Ramos, Rachel de Queiroz, José Lins do Rego, entre outros destacados no país. Em termos políticos, ele participou da Revolução de 30 e contribuiu no combate à Revolução Constitucionalista de São Paulo, integrando a Força Pública. Após a redemocratização, ele liderou a organização da UDN em Alagoas, chegando a ser candidato a governador, mas foi derrotado. Foi eleito deputado em dois mandatos e faleceu durante o segundo mandato como senador. Em casa, sempre fomos incentivados a ler obras de nossa biblioteca e a discutir as questões que meu pai vivenciava. Assim, a política e as reflexões faziam parte do nosso cotidiano.

A homenagem no Seminário do PPGAS

Há algum tempo, John Comerford vinha me falando sobre a realização de um evento em homenagem ao meu título de professor emérito da UFRJ. Eu já havia participado de eventos assim para outros professores, que tinha que usar trajes especiais, e inicialmente relutei em aceitar. Não sei se por timidez, mas relutava. No entanto, ele conversou comigo e organizou um evento interessante, integrando o Seminário PPGAS, tendo como título “Da ‘Plantation’ à Política: Cinco Décadas de Pesquisas – Homenagem ao Professor Moacir Palmeira”. Ao final, tivemos uma confraternização, e fiquei grato pelo que fizeram. Que mais momentos como esse sejam celebrados no Museu Nacional/UFRJ.

 

Resumo de relato de Moacir Palmeira, professor do Programa de Pós-Graduação em Antropologia Social (PPGAS) e que acaba de receber o título de professor emérito da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). A apuração foi realizada por meio de duas entrevistas ao Harpia, totalizando um pouco mais do que quatro horas.

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