Meus laços afetivos com o Museu Nacional/UFRJ são fortes e de longa data. Meu avô trouxe meu pai para visitar as exposições diversas vezes, e meu pai me trouxe na infância algumas vezes também. Morávamos em Petrópolis e, quando eu entrava no Palácio de São Cristóvão, ficava encantado, especialmente com as galerias de zoologia. Lembro que, nas visitas iniciais, eu sentia um temor imenso por aquele grande caranguejo do Mar do Japão, já fazendo o percurso preocupado com o momento em que eu iria me deparar com ele. Sentia também a sensação de que ali havia mais coisas do que a gente via, ficando curioso sobre aonde aquelas portas e elevadores iriam dar. E eu trouxe meu filho em inúmeras oportunidades, reunindo grupinhos nos tempos da escola ou convidando-o para estar comigo nos momentos mais marcantes. Vivemos a magia dessas visitas ao Museu na minha família desde sempre.

Ainda lembro da primeira vez, já adulto, em que tive acesso ao que estava “por trás das cortinas” das exposições do Palácio de São Cristóvão, que era o que tanto me despertava curiosidade na infância. Senti uma mistura de júbilo e de tensão, porque foi no dia da minha seleção para o mestrado. Pude, então, adentrar o Pátio do Chafariz e outros espaços do imenso Palácio, onde, anos depois, volta e meia, eu ainda me perdia, especialmente no terceiro andar. Fiquei inconformado já nos primeiros anos no Museu, ainda no início da década de 1970, com as condições de conservação da estrutura física do Palácio e das exposições, o que fez com que passasse a dividir meu tempo dedicado às pesquisas de Antropologia com a luta por melhores condições de manutenção para a instituição. Eu me comprometi muito com isso, para que tudo brilhasse à altura dos seus tesouros; levando adiante muito do que aprendi com o professor Paulo de Góes, durante o período em que trabalhei na Reitoria da UFRJ, sobre o compromisso com a coisa pública. Entre 1998 e 2001, fui diretor do Museu Nacional, e, em diferentes períodos, estive diretamente ligado às melhorias estruturais também por meio da Associação Amigos do Museu Nacional (SAMN), de que sou atualmente presidente.
Fatos especiais
São muitos momentos especiais que tive a oportunidade de viver no Museu Nacional e destaco aqui alguns:
– Lembro com alegria do trabalho de higienização das salas de exposições, que fiz com a minha equipe maravilhosa, logo no início do período em que fui diretor do Museu. O trabalho começou para recebermos a rainha da Dinamarca, cujo governo financiou uma exposição no Museu, comemorativa do grande paleontólogo dinamarquês Peter Lund, que escolheu viver no Brasil para seus estudos no campo da história natural. Ele foi responsável pela descoberta de espécimes que estavam nas exposições, como o tigre-dente-de-sabre e a preguiça gigante.

– Foi especial a abertura da última forma da exposição egípcia, em que pudemos contar com o engenho do arquiteto Jorge Hue para desenhar da melhor forma o espaço. Fiz um discurso na escadaria de mármore, e fiquei com uma sensação de plenitude muito grande por ter concluído algo forte e bonito para o Museu Nacional. Além do corpo social, estavam presentes a minha família, e os diretores de outros museus do Rio de Janeiro – de que me aproximei por considerar importante esse tipo de convívio, especialmente entre os museus “nacionais”.

– Assim que assumi a Direção, no prédio anexo Alípio de Miranda Ribeiro, conseguimos restaurar todas as salas do histórico e importante laboratório de taxidermia, com recursos do Programa de Apoio aos Museus da Fundação Vitae, tendo como gestora Gina Gomes Machado. Essa fundação privada nos ajudou imensamente, inclusive nessa preciosíssima vitória para o Museu Nacional.
– Não ocorreu na minha gestão, mas também foi muito especial presenciar a construção e a entrega do prédio da Biblioteca Central, no Horto Botânico do Museu Nacional/UFRJ. Isso foi possível por meio de recursos federais e ela ficou à altura de seu riquíssimo acervo, que inclui preciosas obras raras e in-folios. Cabe destacar que ela foi criada oficialmente em 1863, sendo uma das maiores da América Latina especializada nas áreas de ciências naturais e antropológicas, com mais de 500 mil títulos. E agora esse prédio passa por nova reforma, com previsão de reabertura em 2022, gerenciada pela SAMN.
– No final da gestão do professor Luiz Emygdio de Mello Filho como diretor do Museu Nacional/UFRJ, na década de 1980, foi contratada uma empresa de paisagismo para revitalizar o Jardim das Princesas e o Pátio do Chafariz. Ficou bonito o trabalho, mas não era coerente com o “espírito do lugar” – um princípio que defendo muito. Com a falta de manutenção, eles foram decaindo, até que passei a me dedicar ao seu cuidado, junto aos jardineiros que tínhamos inicialmente nos nossos quadros, e, depois, com os terceirizados, aproveitando meu gosto e habilidade em cuidar de plantas. Foi sempre muito gratificante essa experiência.
– Certa vez, decidiu-se fazer voltar o nosso elefante para as exposições. E foi uma verdadeira epopeia, desde proceder a sua restauração, até toda a manobra para conseguir retirá-lo lá debaixo, do anexo Alípio de Miranda Ribeiro, e içá-lo para o segundo andar do Palácio de São Cristóvão. Esse “resgate” do elefante foi um momento ao mesmo tempo emocionante e hilário, entre os que presenciei aqui no Museu.
– Para fechar esses fatos marcantes, cito o momento em que presidi o Escritório Técnico-Científico das Novas Exposições, entre 2001 e 2003. Foi um trabalho conturbado e difícil, seu resultado não tendo sido levado à frente por motivos internos e externos. Ainda assim, serviu agora como base para o projeto que está sendo elaborado para a reabertura das exposições no Palácio. Redigi artigos sobre o tema, descrevendo os princípios do projeto, no que foi um dos pontos altos da minha dedicação ao Museu.
Resumo sobre minha vida acadêmica
Durante a formação na Faculdade de Direito da UERJ, eu me preparava para ser diplomata, enquanto trabalhava, para me manter, na Reitoria da UFRJ. Como secretário do CEPG, todas as dissertações e teses da Universidade passavam pelas minhas mãos, inclusive as de Antropologia do Museu Nacional. Fiquei entusiasmado com a leitura daquelas pesquisas. Ao mesmo tempo, por motivos políticos, acabei desistindo da carreira diplomática. Minha fluência em línguas estrangeiras contribuiu um pouco para a minha aprovação no Programa de Pós-Graduação em Antropologia Social (PPGAS), frequentando o mestrado a partir de 1974. Mesmo tendo sido criado em 1968, esse Programa do Museu já tinha sua aura de excelência, sendo muito competente e exigente. Eu ficava com uma sensação de fascínio e de responsabilidade por dominar a literatura com que não tinha tido contato na graduação, e conseguir ficar à altura do PPGAS. Logo emendei no doutorado, concluído em 1985 – com um pós-doutorado no Groupe de Sociologie Politique et Morale, da EHESS, Paris, em 1991.
Minha carreira acadêmica é voltada para as áreas de antropologia da pessoa, da família, da saúde, da sexualidade e da religião. Na década de 1980, publiquei o livro “Da Vida Nervosa nas Classes Trabalhadoras”, redigido a partir de pesquisa realizada ao longo de uma década, que retrata como as noções de “nervos” e “nervoso” são importantes e fazem sentido para as camadas populares brasileiras. Outros doze livros foram publicados desde então (além de mais de 150 artigos) e o mais recente é “O corpo moral: fisicalidade, sexualidade e gênero no Brasil”, organizado com Carlos G. O. Valle, em 2018. Meu interesse principal de pesquisa hoje é o da relação entre a evolução do pensamento antropológico e as condições mais gerais do desenvolvimento da cosmologia ocidental, particularmente a propósito do romantismo e do vitalismo.
Além de publicar e discutir os resultados de minhas pesquisas, tive muitas oportunidades de levar a informação sobre nosso Museu Nacional pelo mundo afora por todos esses anos, estabelecendo importantes intercâmbios com universidades e instituições de pesquisa. Sou membro titular da Academia Brasileira de Ciências – e ainda tenho muitas ideias para produzir cientificamente nos próximos anos. Busco equilibrar meu lado de militante pelo Museu, pela Universidade e pela democracia com a vida acadêmica.
Perspectivas
Não sei se você também deixou de trazer ao nosso Museu Nacional alguém especial! Infelizmente – no meu caso – não deu tempo de trazer meu neto, que tinha apenas um ano de vida em 2018, para conhecer o Museu, mas desejo trazê-lo nos próximos anos – assim que reabrirmos – e compartilhar com ele a renovada importância da nossa instituição e toda a dedicação e entusiasmo que aqui vicejam. É um desejo muito grande que tenho, para que ele também passe pelo encantamento das visitas que meu pai, eu e meu filho tivemos nas nossas infâncias com esse precioso museu de história natural e antropologia. E que, assim, ele também venha a repassar encanto, curiosidade e empenho para as próximas gerações. Quero muito que ele caminhe comigo no Jardim das Princesas e no Pátio do Chafariz, assim como provavelmente no Horto, essa parte tão viva e tão encantadora do Museu. Nossas grandes joias naturais.
Desejo que cada um de vocês busque desenvolver seu trabalho individual sem nunca esquecer do interesse coletivo da instituição; porque não podemos sobreviver isoladamente – e isso ficou bem claro a partir de setembro de 2018. Este processo de busca por apoios, acervos, construções, uma nova concepção das exposições, dos jardins é cansativo; mas, para mim, participar disso tudo é como se devolvesse ao Museu algo do muito que ele me deu, ao longo da vida, com sua riqueza, sua excelência, sua magia.
Há muito o que ser feito para a reconstrução e recomposição da Casa. Que a gente consiga superar as nossas melhores expectativas, mantendo o espírito bicentenário do primeiro museu e casa de ciência do Brasil!
Um forte abraço,
Luiz Fernando Dias Duarte
Professor de Antropologia do Museu Nacional/UFRJ e presidente da SAMN