“Ruy, você é um cientista louco, portanto tem que conhecer o Becker!” A frase foi dita em 1988 pela professora de genética Sílvia Borges ao então universitário Ruy José Válka Alves, hoje professor titular do Departamento de Botânica do Museu Nacional/UFRJ. O encontro ocorreu na feira de livros do Largo do Machado e selou o início de uma relação que marcaria a trajetória de ambos: Ruy tornou-se orientado voluntário e extraoficial de Johann Jacob Becker (1932–2004), naturalista e professor do Museu.

“Tive o privilégio de acompanhar aquele naturalista em excursões de campo a diversas serras rupestres de Minas Gerais e da Chapada Diamantina na Bahia, além de quase três frutíferos meses de expedição à Ilha da Trindade de 1994 a 1995“, orgulha-se o professor Ruy Alves.
Poliglota, Becker traduziu do alemão para o português dois livros e diversos artigos científicos. Entre eles, os trabalhos do entomólogo e herpetólogo Adolpho Lutz e do ictiólogo Franz Steindachner. “Seu vasto conhecimento dos mais variados aspectos de história natural e idiomas era notório em toda e qualquer conversa, apesar da modéstia que, junto à insaciável curiosidade científica e ética impecável formava o tripé da sua existência”, relata o professor Ruy.

‘Época digna do Indiana Jones’
O professor Ruy destaca que Becker viajou o mundo numa época digna do Indiana Jones. Atravessou o Atlântico num Zeppelin. Numa Ilha do Pacífico se viu intimado a casar com a filha do chefe de uma tribo e fugiu a nado para outra ilha próxima. “No Panamá foi esfaqueado por um ladrão que lhe roubou a máquina fotográfica Leica. Depois, o ladrão “gentilmente” deixou o rolo de filme rebobinado num envelope na estação de Polícia em seu nome”, lembra o professor Ruy. Histórias assim eram contadas nas andanças pelo Brasil, quando coletavam insetos durante o dia e passavam a noite preparando o material.

Perfeccionista, Becker publicou relativamente pouco. Grande parte do conhecimento que acumulou se perdeu com ele. “Outra parte, não menos importante, está dispersa em milhares de espécimes coletados, bem como nas cabeças de centenas de discípulos e admiradores, duas categorias às quais faço questão de pertencer. Em Pós-Graduação na França, ia estudar Collembola, e coletou espécies novas dessa Ordem de insetos no quintal da Instituição que o abrigava durante o inverno. Como os orientadores nunca haviam pensado em coletar no inverno, teriam ficado envergonhados e tiveram inveja dele, forçando-o a abandonar o curso”, opina o professor Ruy Alves.

Becker foi colaborador do professor Ruy na terceira Disciplina de Biogeografia Montana, Minas Gerais, Serra do Lenheiro, 1998. Nesta imagem, estão com a estudante Fabiana Nonato. Foto: Acervo Ruy Alves
Dezenas de milhares de insetos

Becker, como naturalista que adorava ir a campo, coletou, montou e determinou dezenas de milhares de insetos. O professor Ruy estima que 90% foram perdidos no fatídico incêndio do Paço de São Cristóvão, sede do Museu Nacional/UFRJ, em 2018. Ele havia distribuído parte do acervo em outras instituições, como os 14.206 insetos depositados na Universidade Estadual de Feira de Santana (UEFS). Parte também foi enviada ao exterior, como o tipo de Liagonum beckeri, hoje no Museu de Paris.
Sem habilitação para dirigir, viajava pelo país com Olmiro Antonio Roppa, motorista do Museu Nacional e também experiente em ecologia de vegetação e entomologia. Ambos eram coletores e preparadores incansáveis.

Vasto acervo bibliográfico
As inúmeras obras da biblioteca que acumulou ao longo da vida eram sempre emprestadas aos pesquisadores. “Sempre que precisei de um livro raro, antigo ou esgotado, ou o Becker tinha, ou ele sabia onde conseguir. Durante meu doutorado ele me trouxe até Praga, a famosa obra de fitossociologia do Braun-Blanquet, intangível na Tchecoslováquia da época. De sua vasta biblioteca, que ocupava duas camadas de cada parede de suas moradias, Becker nunca mais viu centenas de obras que emprestou”, relata o professor Ruy.

Becker foi um dos pioneiros nos estudos realizados na Ilha de Trindade, onde participou de longas campanhas entre 1958 e 1965. Embora não tivesse o hábito de publicar muito, compartilhou verbalmente informações valiosas com o professor Ruy Alves. “Nos anos 1960, ele recolheu nas praias da Ilha duas plaquetas retangulares de plástico vermelho, com uma mensagem em relevo — eram parte de um estudo sobre correntes marinhas e traziam o endereço de uma instituição na África do Sul, solicitando que fossem devolvidas com data e local do achado”, relembra o professor do Departamento de Botânica. “Provavelmente foram oceanógrafos os primeiros a lançar plástico ao mar!”, comenta, em tom reflexivo. Ainda segundo Ruy, Becker chegou a responder ao pedido, enviando as plaquetas acompanhadas de uma carta solicitando informações sobre o projeto. Apesar das várias tentativas, nunca recebeu qualquer resposta. “Valeria a pena alguém investigar isso mais a fundo. Tentei pela internet, mas não cheguei a nada”, conclui.
No levantamento feito por Ruy, ele encontrou na Entomological News o obituário de uma página (e 20 dólares!) feito por Hitoshi Nomura, sugerindo que das inúmeras espécies novas coletadas por Becker, por volta de 16 foram dedicadas a ele. Entre elas, espécies endêmicas da Ilha da Trindade, como: Asplenium beckeri Brade, Elaphoglossum beckeri Brade, Liagonum beckeri Jeannel, Peperomia beckeri Guimarães & Alves, Plantago trinitatis Rahn e Psilotum triquetrum f. insulare Brade. Há alguns Hemiptera (Miridae) co-descritos por Becker, como: Acrorrhinium brincki , Ellenia obscuricornis e Pangania fasciatipennis Poppius, estes de Carvalho, Dutra & Becker.
Becker foi pioneiro ao propor que as rochas tubulares nas dunas da Ilha da Trindade fossem fulguritos. Isso foi confirmado mais tarde em trabalho publicado em 1997 na Acta Microscópica com autoria da professora Maria Elizabeth Zucolotto, L. Antonello e professor Ruy Alves e intitulado “Calcareous Sand Fulgurites from Trinidad Island“.
Destaca-se entre os estudos do professor Becker a identidade verdadeira da árvore que já havia sido dominante nas florestas da Ilha da Trindade. Em 1959, ele coletou, de um exemplar “moribundo” os últimos ramos férteis do que se acreditava ser o pau-brasil (Caesalpinia echinata). Entretanto, a análise de suas exsicatas revelou se tratar de uma Colubrina glandulosa Perk. (Rhamnaceae).

Da expedição científica para a Ilha da Trindade, Becker e Ruy desenvolveram alguns estudos. Ela durou cerca de 70 dias, além de dez dias no mar. No relatório que fizeram para a Marinha do Brasil, em fevereiro de 1995, recomendaram a erradicação das cabras no local. O professor Ruy Alves informa que nesse esforço realizado ao longo de aproximadamente 11 anos, a vegetação está se recuperando, assim como a água nos riachos. Na época, ele era estagiário do Jardim Botânico do Rio. “Durante a travessia, enfrentamos mar 11, de 13, na escala de Beaufort. O pequeno navio subia uma montanha de mar, depois escorregava para dentro de uma vaga com 20 metros. As ondas arrebentavam por cima do tijupá. Nas refeições, o prato de um corria pela mesa para quem estava defronte. As camas dos camarotes tinham cintos de segurança”, relembra uma das tantas aventuras que teve nos trabalhos de campo.

Homenagem ao Becker
Em 2020, Ruy prestou homenagem ao mestre e amigo por meio de dois vídeos sobre seu trabalho na Ilha da Trindade, publicados em português e inglês no YouTube. Segue a versão em português:
O Legado
Johann Becker inspirou muitas das pesquisas e viagens de campo realizadas pelo professor Ruy Alves. Foi a partir dessa convivência que o professor publicou, em 1998, o livro “Ilha da Trindade e Arquipélago Martin Vaz – Um Ensaio Geobotânico“, que reúne o primeiro inventário florístico detalhado da Ilha, além de mapas de vegetação e uma proposta de reconstrução geobotânica da vegetação potencial com base em tipos brutos de substrato — como rocha, falésia, solo inorgânico e solo orgânico. Segundo o professor Ruy, a publicação só foi possível graças à ajuda de Ricardo Montfort e Max Justo Guedes, oficiais de alta patente da Marinha do Brasil.
No resumo, os autores destacam: “Historicamente a pesquisa da Trindade se entrelaça com os inícios do Museu Nacional, na segunda metade do século 18, quando o Vice Rei Dom Luiz de Vasconcellos Souza ordenou a ocupação da Ilha em 1783, explicitamente determinando que se trouxesse dela todo material interessante de história natural. Estabeleceu a “Casa dos Pássaros”, com base em cujo acervo foi fundado o Museu. Expedições esporádicas de pesquisa para Trindade e, muito raramente, Martin Vaz foram realizadas posteriormente. Várias resultaram em publicações que hoje, em grande parte, são obras raras e de difícil acesso”. No final deste conteúdo, colocamos o acesso para o PDF.
Em 2008, postumamente, foi publicada a pesquisa “Vascular Epiphyte Vegetation in Rocky Savannas of Southeastern Brazil”, na Nordic Journal of Botany, de autoria do professor Ruy, J. Kolbek e Becker.
A parceria nas pesquisas fez parte da vida deles. Becker colaborou com as disciplinas de campo ministradas por Ruy nas serras de Minas Gerais. Participou de atividades do Programa de Pós-Graduação em Botânica do Museu Nacional.
Ruy recorda que ingressou como docente do Museu Nacional em 1996 após ser informado e inscrito no concurso pelo próprio Becker. Pouco depois, ele se aposentou compulsoriamente.
Becker evitava falar de si. Ruy diz nunca ter encontrado um currículo Lattes do colega. “Há dezenas de pesquisadores no Museu Nacional e pelo mundo que saberiam acrescentar muito mais fatos importantes sobre o Becker. Espero que eles também não deixem nosso colega cair no esquecimento. Levantar de forma responsável os conhecimentos transmitidos pelo Becker seria uma tarefa hercúlea, mas temos que tentar honrar sua memória, reunindo os dados e materiais que ele nos deixou”, convida o professor Ruy.

“Transmito com nostalgia aos meus alunos o que aprendi nas conversas com Becker. Ele adquiriu seu conhecimento meticulosamente a partir da experiência de campo, de livros raros e caros e da troca de cartas escritas à mão, o que exigiu tempo e paciência. E ele verificava as fontes, o que podia levar anos. Mesmo hoje, vinte anos após sua morte, a maioria dessas fontes, incluindo o trabalho de Becker, ainda não está disponível na Internet”, orgulha-se Ruy Alves.
Johann Jacob Becker nasceu e faleceu em Salvador, na Bahia. O professor Ruy Alves resgata o enunciado do ex-libris de Leonam de Azeredo Penna: “Laboremus semper!“, que também teve Becker como amigo, colega e mestre. “Só poderemos honrar esse grande naturalista com muito trabalho. Johann Becker sempre viverá em nossas memórias”, conclui.
Este conteúdo foi redigido a partir de amplo relato desenvolvido pelo professor Ruy Alves, detalhando lembranças e descobertas científicas. Aqui, buscamos apresentar um resumo a partir de pontos selecionados.
Saiba mais
Leia o livro “Ilha da Trindade e Arquipélago Martin Vaz – Um Ensaio Geobotânico“. Acesse.
Coleção Johann Becker. A gigantesca biblioteca particular do zoólogo do Museu Nacional foi doada para a Biblioteca Central após sua morte. Centenas de títulos estão disponível na Base Minerva. Acesse.
Matéria do Harpia, edição 32, abril de 2025.