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Gilmar da Silva e sua evolução de vida pelo Museu

É conhecida e valorizada pela sociedade toda a produção e difusão de conhecimentos pioneiros e de destaque do Museu Nacional/UFRJ. Mas acrescento que devemos observar a nossa instituição também como agente transformador na vida dos pesquisadores, e eu sou um exemplo disso. Minha vida social foi completamente transformada desde que cheguei aqui na Iniciação Científica, em 2016. Agora, estou no doutorado do PPGBot: Programa de Pós-Graduação em Ciências Biológicas (Botânica).

Trabalho de campo na Pedra Bonita, Parque Nacional da Floresta da Tijuca. Créditos: Arthur Rodrigues
Oportunidade e dedicação

Antes, eu era um estudante sem um caminho bem definido para o futuro. Fiz a graduação no Centro Universitário Celso Lisboa e recebia uma bolsa de estudos por trabalhar como auxiliar de biblioteca da Unicarioca. Eles tinham um convênio. Para manter a gratuidade, eu precisava ser aprovado em todas as disciplinas e continuar no emprego. Mas eu queria já me qualificar para o meu futuro profissional. Durante as aulas da Juliana Barreto, que era minha professora e, atualmente, é pesquisadora de pós-doutorado no Museu, fiquei sabendo da importância da Iniciação Científica e das possibilidades aqui. Bati em diferentes portas e não consegui espaço. No dia seguinte, a Juliana me colocou em contato com as professoras Heloísa Alves e Ana Rodarte, que me acolheram e fiquei muito feliz. Elas me ensinaram tudo com todo cuidado e paciência no Laboratório de Biologia Floral e Reprodutiva.

Isso foi em abril de 2016. Logo nos primeiros dias, já fui para campo, iniciar as atividades de pesquisa em Ibitipoca, Minas Gerais. Depois, passei 4 anos da minha vida indo para lá todos os meses, realizando as pesquisas para a minha dissertação de mestrado. Foi um choque de realidade na minha carreira. O ambiente de montanha é bem específico, tendo espécies vegetais e paisagens que eu ainda desconhecia. Durante as pesquisas em Ibitipoca já comecei o contato com o público que visitava o local e queria saber o que eu estava fazendo ali, sendo uma troca interessante. Era complicado conciliar tantas responsabilidades na faculdade, no trabalho na biblioteca e na Iniciação Científica. Consegui negociar na biblioteca para trabalhar sempre até quinta-feira à noite e compensar depois. E, assim, pude avançar.

Ingresso no PPGBot

Pela vontade de seguir a carreira acadêmica, queria muito ingressar no mestrado. Foram momentos de muita dedicação para conseguir. Para se ter uma ideia, adquiri o livro “Biologia Vegetal”, mais conhecido como “Raven”, que é pesado, com muitas páginas e eu o carregava o dia todo na mochila para estudá-lo a cada intervalo que eu tinha na minha rotina. Andava quilômetros para economizar nas passagens de ônibus e o livro pesado ali comigo.

Assim que eu passei, lembrei de todo esse tempo e do peso desse livro, ficando com uma mistura de alegria e alívio por ter conseguido. Mas não fiquei em uma colocação para receber a bolsa de mestrado. Decidi ingressar assim mesmo, usando uma grana que eu tinha poupado. Logo, um colega de faculdade me indicou buscar um laboratório na Uerj que estava precisando de biólogo e, assim, pude ter uma remuneração dentro da vida acadêmica.

‘Vriesea heterostachys’ no Parque Nacional da Serra dos Órgãos, sede Teresópolis. Crédito: Beatriz Neves

Estudei no mestrado os impactos dos herbívoros nas plantas que descrevi na Iniciação Científica. Consegui defender essa dissertação em agosto de 2020. E, após esse “gap” da pandemia, ingressei no doutorado com a professora Andrea Costa em setembro de 2022, tendo o professor Fabiano Salgueiro da UNIRIO e a doutora Marina Muniz, ex-estudante do Museu Nacional, como coorientadores. Agora, minhas pesquisas de campo serão feitas no Parnaso, Parque Nacional da Serra dos Órgãos.

O 1º artigo científico internacional

Foi muito marcante e indescritível o dia que consegui publicar o meu primeiro artigo internacional, saindo na “Plant Species Biology”. Foi um grande desafio, sendo intelectualmente cansativo e difícil para concluí-lo. Mas era essencial conquistar esse espaço para que eu conseguisse concorrer à seleção do doutorado. Foi uma luta muito grande e me dediquei de corpo e alma. O Museu me proporciona experiências que colocam a minha vida em outro patamar: publicar um texto em outra língua, com toda uma gama de detalhes, complexidade e rigor científico, levando informações de plantas nossas para a ciência.

Tive muito apoio das minhas orientadoras da época, a Ana Rodarte, a Heloísa Alves, e também de uma antiga estudante do Laboratório, a Cristine Benevides, que foram minhas colegas no artigo. E precisei contar com uma tradutora estrangeira especializada para colocar nos conformes da língua inglesa. Talvez, lá atrás, meus familiares não pudessem esperar que eu iria alcançar algo assim na minha carreira. E nem eu esperava. Hoje, fico feliz em conversar com a minha atual orientadora, a professora Andrea Costa, sobre a possibilidade de um doutorado sanduíche, de uma ida ao exterior, de trabalhar com profissionais também do exterior. Tudo isso é proporcionado pela estrutura do Museu Nacional.

Gilmar entre a Beatriz Neves, ex-aluna do mestrado ao pós doutorado do Museu Nacional e o Arthur Manoel, doutorando do MN, na Cachoeira do Véu da Noiva, na Trilha do Sino, Parque Nacional da Serra dos Órgãos
Gilmar entre a Beatriz Neves, ex-aluna do mestrado ao pós doutorado do Museu Nacional, e o Arthur Manoel, doutorando do MN, na Cachoeira do Véu da Noiva, na Trilha do Sino, Parque Nacional da Serra dos Órgãos

 

Representatividade

Participei duas vezes do Botânica no Museu, iniciativa voltada para a divulgação científica das pesquisas dos estudantes do PPGBot para a comunidade. Recebemos muitos graduandos e esse olhar de fascínio deles é muito relevante. Ainda mais pela questão da representatividade, porque considero que meu perfil não é tão convencional no Museu Nacional/UFRJ, e na plateia também estavam estudantes negros. Acredito que tenha sido importante para eles encontrarem no quadro de pesquisadores alguém com as mesmas características.

Minha base

A minha família tem uma origem humilde. Sou o primeiro da família com título de mestrado. E somente se graduou antes de mim um tio-avô, que é advogado. Pelo o que me lembre, ele é o único parente próximo com uma graduação. Meus pais sempre trabalharam em mercado, meu pai sendo promotor de vendas e a minha mãe trabalhando como auxiliar administrativo. Nunca nos faltou nada, mas foi tudo com muita luta para sustentar a mim e aos meus irmãos. Nossa avó e tios paternos foram muito importantes na nossa infância para cuidar da gente porque a nossa avó materna tinha alguns problemas de saúde, que demandavam atenção dos nossos pais.

Trabalho de campo no Parque Nacional da Serra dos Órgãos. Crédito: Beatriz Neves

Foi a partir dessa base que pude buscar outros voos, como fazer uma graduação, um mestrado e ingressar no doutorado. Em termos financeiros, a minha renda hoje é bem diferente da que eu tinha antes do Museu. Ainda mais agora que a ciência está voltando a ser valorizada e estamos conseguindo uma primeira melhoria nas bolsas de pesquisas. Cheguei ao Museu com 25 anos, atualmente tenho 31. Moro agora no Irajá com a minha noiva Gabriela Menezes, que é formada em Química e mestranda na UFRJ. Sou muito grato à minha família pelas oportunidades que me proporcionaram e todo o apoio que recebo de cada um deles.

Com o meu olhar de botânico fico satisfeito pelo Museu Nacional ter esse histórico de pioneirismo e reconhecimento por produzir ciência para a conservação ambiental. É uma instituição que seus pesquisadores estão desvendando e correndo contra o tempo para conseguir trazer as informações científicas antes que as espécies sumam. E eu faço parte disso. Já na Iniciação Científica tive uma virada de chave para eu deixar de ser um garoto para me tornar um homem com responsabilidades, vendo o mundo com um olhar mais ampliado. Estou dedicado para contribuir com os avanços científicos nas áreas de Botânica e Zoologia, levando o Museu pelo mundo junto ao corpo social.

Vamos juntos produzir ciência e difundi-la para a sociedade!

 

Um abraço botânico a toda a família do Museu Nacional,

Gilmar Moreira da Silva

Doutorando do PPGBot (Programa de Pós-Graduação em Ciências Biológicas (Botânica).

 

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