O Museu Nacional representa, para mim, muito mais do que oportunidades acadêmicas. Representa a possibilidade real de dar retorno à sociedade por meio da ciência. Aqui, tenho acesso a experiências que já transformaram minha carreira acadêmica, minha vida pessoal — e talvez eu não as tivesse em outro lugar. É indescritível a oportunidade de apresentar nossas descobertas para o público nas exposições e nos eventos na Quinta da Boa Vista, observar as reações, trocar conhecimentos e perceber o quanto podemos inspirar pessoas de todas as idades. Fazer parte desta instituição histórica abre portas porque há um respeito pela qualidade dos trabalhos desenvolvidos. Isso já me possibilitou colaborar com especialistas de diferentes instituições e países.
Estou com viagens agendadas para a China e para a França, onde vou desenvolver pesquisas nas áreas de Paleontologia e Paleohistologia nos próximos meses, como parte do doutorado no Programa de Pós-Graduação em Zoologia. Sou orientado pela professora Juliana Sayão, com quem pesquiso há dez anos, e pelo professor Alexander Kellner. São muitas oportunidades especiais. Em 2023, fiz um estágio no Centre de Recherche en Paléontologie da Universidade Sorbonne, em Paris, sob supervisão dos pesquisadores Jorge Cubo e Mariana Sena. Esse laboratório me forneceu acesso a um banco de dados exclusivo e à metodologia necessária para aplicar as análises quantitativas que utilizo hoje.

A partir dessa experiência, surgiu a oportunidade de ser um dos organizadores do II Meeting on Vertebrate Paleophysiology, realizado no Muséum National d’Histoire Naturelle , também em Paris, em setembro de 2024. Lá, pude interagir com pesquisadores de grande relevância na área, como Armand de Ricqlès, na paleohistologia, e Roger Seymour, na fisiologia. Algo que me marcou especialmente foi a chance de compartilhar com o Seymour o impacto de suas pesquisas. Contei a ele que seus trabalhos estavam presentes nos livros de fisiologia que foram fundamentais para minha formação na graduação. Ele ficou muito emocionado ao saber que seu conhecimento havia chegado até a uma pequena cidade do interior do Nordeste brasileiro.

Vou resumir para vocês, neste relato, um pouco da minha trajetória e dos temas que venho pesquisando.
Seria o ‘acaso’?
Fico pensando em como cheguei a lugares que, há poucos anos, nem imaginava alcançar. O “acaso” surge, e eu me dedico a cada oportunidade com responsabilidade. Nasci em 1999, em Caicó, na zona central do Rio Grande do Norte. Quando concluí o Ensino Médio, com 15 anos, morava com minha família em Vitória de Santo Antão, em Pernambuco, a 48 quilômetros de Recife. Foi criado ali um campus dentro do projeto de expansão e interiorização das universidades federais, durante o Governo Lula: o Centro Acadêmico de Vitória de Santo Antão, da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE). Minha mãe me inscreveu no ENEM, me orientou a estudar para fazer a prova — e passei com uma boa pontuação. Devo muito a essa atitude dela, porque sou o primeiro da minha família a cursar uma pós-graduação. Tinham poucos cursos e decidi por eliminação: me identifiquei somente com Ciências Biológicas.

Pela minha nota, recebi suporte da Fundação de Amparo à Ciência e Tecnologia do Estado de Pernambuco (FACEPE), que exigia que o estudante selecionado tivesse um orientador. Eu havia tido aula, naquela semana, somente com a professora Juliana Sayão, que na época atuava ali, e gostei muito. Conversei com ela, que prontamente aceitou me orientar e providenciou a documentação. No meu projeto de iniciação científica, ainda em 2015, desenvolvi estudos osteohistológicos com diferentes vertebrados fósseis, inicialmente com crocodilianos. Depois, passei a trabalhar com os pterossauros, tema ao qual me dedico até hoje.
Um momento marcante nesse início foi minha primeira apresentação em um evento científico: o Encontro de Zoologia do Nordeste, realizado em Garanhuns, em 2016. Também cabe citar que, ao concluir o projeto de iniciação científica, recebi o Prêmio Ricardo Ferreira ao Talento Jovem Cientista, em 2019.
Minha chegada ao Museu Nacional
Quando a professora Juliana passou a trabalhar no Museu Nacional/UFRJ, em 2018, eu ainda cursava a graduação. Ela sinalizou que eu poderia tentar a seleção para o mestrado, mas avisou que se tratava de um processo bem concorrido. Eu nunca tinha saído do Nordeste e nem imaginava estudar no Rio de Janeiro. Ainda desconhecia as possibilidades que os estudos poderiam me proporcionar. Quando ocorreu o fatídico incêndio, eu estava concluindo a graduação e pensei que talvez fosse necessário buscar outros caminhos. Mas logo a reconstrução foi iniciada, e fiquei sabendo que as atividades de pesquisa, ensino e extensão foram mantidas.

Concluí a graduação, vim ao Rio, passei no mestrado e fiquei muito feliz. Também iniciei meus estudos de inglês, porque minha família não teve recursos para pagar um curso na infância e adolescência. Tive minhas primeiras aulas no início de 2020, e logo começou o lockdown por causa da pandemia de Covid-19. Como era necessário ficar isolado, achei melhor retornar ao Nordeste e ficar perto da minha família. A cidade era pequena, com poucos casos, e a universidade permitia que eu levasse os fósseis e estudasse no laboratório local. Assim, pude me dedicar aos estudos do padrão osteohistológico, ontogenético e fisiológico do pterossauro do Cretáceo Superior Caiuajara dobruskii.
No mestrado, fui orientado pelo professor Alexander Kellner e co-orientado pela professora Juliana Sayão. Estar lá foi essencial para avançar nas pesquisas e concluir dentro do prazo. Já no doutorado, continuo estudando pterossauros do Cretáceo Superior, agora com foco em inferir e esclarecer as estratégias de regulação térmica do grupo Pterosauria. Agora sob orientação oficial da professora Juliana Sayão e co-orientação do professor Alexander Kellner. Conto também com a supervisão do professor Jorge Cubo, na França, uma referência nos estudos de paleofisiologia.

Quando apresentei os resultados preliminares da tese, fui premiado com o primeiro lugar do Prêmio Carlos de Paula Couto, no XII Simpósio Brasileiro de Paleontologia de Vertebrados. Temos publicado estudos relevantes em colaboração com pesquisadores de diferentes instituições. São muitas oportunidades de pesquisa. Além disso, já estou concluindo meus estudos de inglês, conseguindo conversar com tranquilidade com os pesquisadores na França. E comecei a estudar francês para aproveitar ainda mais as oportunidades que possam surgir.

Sou integrante do grupo de pesquisa do projeto Paleoantar e participo de redes interinstitucionais, como o grupo Paleobiologia e Paleogeografia do Gondwana Sul: interrelações entre Antártica e América do Sul e Paleontologia das Bacias Interiores do Nordeste do Brasil, da Universidade Regional do Cariri (URCA). Além disso, sou colaborador em projetos de extensão universitária e divulgação científica da UFPE.
O Museu Nacional proporciona experiências incríveis. Foi muito interessante poder contribuir com o grupo que desenvolveu a parte de paleontologia da exposição “Um Museu de Descobertas”, na Estação Museu Nacional. O mesmo sítio fossilífero de Cruzeiro do Oeste, no Paraná, onde foi encontrada a Berthasaura leopoldinae, é o local de origem do Caiuajara dobruskii, pterossauro que estudo em minha pesquisa.
Espero que o Paço de São Cristóvão, sede do Museu Nacional, seja reaberto em breve, com exposições montadas e acessíveis ao público. E que eu possa contribuir na organização dessas exposições, de alguma forma, vendo os resultados de diferentes pesquisas integrados aos conteúdos apresentados.
Meu desejo é que este relato possa inspirar. Que pessoas como eu, que não tiveram acesso, possam ter uma universidade pública perto de casa, recebam bolsas e possam sonhar com uma vida melhor — e até se surpreender ao chegar em lugares que jamais imaginaram. Vim de escola pública, meus pais são comerciantes e enfrentaram dificuldades ao longo da vida, inclusive mudando de cidade durante minha graduação. Mas confiaram na minha responsabilidade e me deixaram morar sozinho ainda na adolescência para seguir estudando. Enfrentei muitos contratempos, mas me dediquei ao máximo a cada oportunidade que surgia. E tenho muito ainda a pesquisar e a me desenvolver. Que possamos nos encontrar nos próximos eventos do Museu!

Espero que o palácio do Museu Nacional seja reaberto em breve, com exposições montadas e acessíveis ao público. E que eu possa fazer parte da organização dessas exposições, de alguma forma, vendo os resultados das diferentes pesquisas integrados ao conteúdo apresentado ao público.
Deixo aqui um abraço a todos e o convite para conhecerem mais sobre o universo da paleontologia e sobre o Museu Nacional!
Esaú Victor de Araújo
Doutorando pelo Programa de Pós-Graduação em Zoologia do Museu Nacional/UFRJ e pesquisador do Laboratório de Sistemática e Paleontologia de Vertebrados (LAPUG), vinculado ao Departamento de Geologia e Paleontologia.
Relato publicado no Harpia Nº 32, abril de 2025.