Não sei para você, mas para mim a linha que separaria a vida pessoal da profissional desaparece no Museu Nacional/UFRJ. Vivo este lugar e suas relações o dia inteiro. É gostoso encontrar as pessoas e trocar com elas, nessa confluência de visão e sentimentos, sempre buscando melhorar essa instituição em todos os sentidos. Minha família foi formada aqui e tenho amigos queridos. Até mesmo quando encontramos as pessoas já aposentadas o nosso assunto é o Museu. Ele é importante para tudo: porque ele é um testemunho de história, educação, cultura e ciência do Brasil, que forma pessoas que irão formar outras pessoas. É um lugar de amor. Brincamos que aqui tem uma espécie de aura, fazendo a gente se apaixonar pelo Museu.
O ressurgir
Poucas pessoas sabem que o Museu Nacional/UFRJ é muito mais do que as exposições. Suponho que você também passe por isso, e considero curioso ter o meu textinho de explicação sobre o que é de fato o Museu. Algumas pessoas imaginam, que não tivemos com o que trabalhar depois de setembro de 2018. Elas ficam surpresas quando conto que tivemos uma defesa de tese do PPGArq na segunda-feira, dia 3, na casa da orientadora, e todo o trabalho que tivemos, inclusive minhas atividades e de meus colegas de reescrever as documentações. Após aquela fatídica noite, parei de chorar, enxuguei minhas lágrimas, e fui para minha casa trabalhar para dar andamento a tudo o que foi necessário. Todas as nossas atividades de ensino, pesquisa e extensão se mantiveram ininterruptas.
Aqueles dias foram de sentimentos muito contraditórios, como tristeza, felicidade e raiva. Apesar de todas as perdas de patrimônio, das informações, das pesquisas de longa data dos nossos professores, dos estudantes que também perderam seus materiais de pesquisa, apesar de tudo, todos nós ficamos vivos e ninguém se feriu. Percebi uma solidariedade muito grande, com apoio entre todos, com o pessoal do Horto recebendo os colegas do Paço de São Cristóvão nos seus espaços, todos dispostos a contribuir.
Nos primeiros momentos, a minha vontade era pegar uma daquelas paredes e ficar abraçando, mas não era possível nem se aproximar minimamente. Aos poucos, essa sensação foi saindo da minha mente e sendo substituída. O Museu está renascendo e estamos com a fachada principal já reformada. Até agora, eu só a vi de longe, porque me vem ainda lembranças que impedem que eu consiga me reaproximar do palácio. Acho que ainda vai demorar um pouco para eu conseguir, mas vai chegar o dia! Acredito que seja mais fácil para quem ficou acompanhando o Resgate de alguma maneira no lugar, porque foi vendo tudo tomando uma nova forma aos poucos. Para quem ficou mantido à distância é muito mais impactante essa reaproximação agora, quatro anos depois.
Mas pude acompanhar outros avanços dessa reconstrução de perto. Como a professora Cláudia Carvalho é arqueóloga e coordenadora do Resgate, foi interessante acompanhar as pesquisas de Arqueologia ressurgindo após a tragédia, com estudos absolutamente inéditos para a ciência. É gratificante ver todos engajados e perceber como todos tiveram seu lado fênix trazidos à tona.
Trabalhar no Museu nos proporciona uma riquíssima experiência. Na Arqueologia, sempre tenho contato com conhecimentos interessantes. Na época da Direção, nos meus anos iniciais na instituição, foi da mesma forma, porque recebia ligações de pessoas que informavam estar com meteoritos, fósseis de dinossauros ou pontas de flecha. Ao mesmo tempo, é uma oportunidade ficar sabendo sobre essas importantes pesquisas desenvolvidas pelas pessoas. É estimulante!
Momentos inesquecíveis
Quando a Angola tinha acabado de passar por uma guerra civil, o presidente angolano ganhou da UFRJ o título de Doutor Honoris Causa. E o reitor da UFRJ, Paulo Alcântara, muito próximo da diretora Janira Costa, decidiu que a cerimônia tinha que ser no Museu Nacional/UFRJ. Como não sabíamos como realizar o cerimonial para um presidente, veio uma pessoa do Itamaraty. Foi muito bonito ver os angolanos emocionados e o Museu receber um evento assim de relevância mundial.
Celebrar é essencial. Houve uma época em que o Museu realizava festas para comemorar nossas conquistas, como as aberturas de exposições, especialmente na época do professor Luiz Fernando Dias Duarte como diretor. A vida social era bem interessante. As pessoas eram muito unidas e celebrávamos com frequência. Tinham festas na garagem, no final do expediente, sendo uma forma de nos conhecermos ainda mais.

Também eram especiais as festas juninas e foi em uma delas que comecei a namorar o meu marido, Ricarte Linhares Gomes, que foi arquiteto do Museu e atualmente está aposentado. Começamos a namorar em julho de 1999 e em março de 2000 já começamos a morar juntos. São 23 anos! E também já fui cupido de algumas histórias. Sem falar das amizades que extrapolam os muros do Museu.
A chegada (quase) ‘bombástica’ e o início dos laços de amizade
Como todo carioca, eu visitava o Museu Nacional e o Zoológico nos passeios anuais de escola. Além disso, eu morava em Vila Isabel, que é próximo, então essa relação sempre existiu. Passei no primeiro concurso da Universidade realizado 1992, no cargo de Técnica de Secretariado, ingressando em agosto de 1994. Esse cargo se mantém e desenvolvo atividades de Secretária Executiva. É curioso, mas eu ainda não sabia que o Museu Nacional é da UFRJ, como a maioria das pessoas. Quando passei, eu não queria ir para o Fundão e, quando eles me informaram as opções, estava o Museu Nacional/UFRJ, que era praticamente ao lado da minha casa.
No dia que fui me apresentar para o cargo, estavam todos do lado de fora do palácio. Lembro que um grupo se aproximou, me perguntou se eu estava perdida e expliquei o que fui fazer. Eles me convidaram para sentar com eles, e me contaram que tinha uma ameaça de bomba, que a Polícia Federal estava lá dentro. Ali mesmo começamos a brincar com a situação, porque, se tivesse uma bomba mesmo, nós todos teríamos explodido junto porque estávamos ali no Jardim Terraço. Era um grupo grande e foi nascendo os nossos ótimos laços de amizade.

Nessa época, a diretora era a professora Janira Costa e comecei como secretária da Direção. Fiquei até o começo de 2005, então trabalhei também com os professores Luiz Fernando Dias Duarte e com o Sérgio Alex. Pedi licença para fazer uma pós-graduação em Secretariado Executivo, na Fecap, em São Paulo, durante um ano e meio. No retorno, quis algo novo e estava abrindo o mestrado em Arqueologia, eles precisavam de uma secretária e estou até agora.
É muito bom olhar para todos esses anos, para tudo o que passamos, e ter minhas amizades construídas no Museu Nacional/UFRJ ao longo dessas décadas. São pessoas queridas, que estamos juntos frequentemente também com as famílias. Mesmo na pandemia ficamos em contato, querendo saber como cada um estava. Isso é muito importante. Sempre celebramos o final de ano, só não ficamos juntos em 2020 e 2021, mas este ano tem que ter essa retomada das nossas comemorações.
Pelo mundo
Talvez você ainda não me conheça, então compartilho o que os meus amigos já sabem: gosto muito de estar com as pessoas, mas viajar é algo essencial. Eu amo de paixão estar na Disney, que é o lugar que eu me divirto e relaxo mesmo, me desligando de tudo. Também gosto de visitar nossos amigos em Portugal, que é um lugar muito gostoso. Aqui no Brasil, gostamos muito de ir para Gramado, todos os anos, curtir a gastronomia e toda a sensação de segurança que não temos nas grandes capitais. E fazemos também pequenas viagens pelo Rio, até voltando no mesmo dia.
Vamos juntos manter o carisma do Museu
Para mim, é uma utopia querer que o Museu seja reaberto igual ao que ele era, porque isso é difícil. Mas desejo que seja mantido todo seu carisma. Que todos possam voltar a ter essas melhores lembranças afetivas sobre ele fazer parte da vida das pessoas. Sinto saudades daquele burburinho das crianças visitando as exposições nos passeios de escola, assim como eu fazia na minha infância e todo o carioca também. Esse resgate afetivo é especial e importante. Desejo que os adultos de amanhã também possam ter essas boas lembranças, assim como nós temos.

Para começar esse resgate, que a gente volte a ser um corpo social, sem deixar que a distância física, que se abateu sobre nós desde setembro de 2018 continue. Precisamos dessa reaproximação porque esse é o grande diferencial do ambiente do Museu. Estamos nesse lugar sui generis, completamente diferente, que é a Quinta da Boa Vista, onde avistamos o Cristo e o Sumaré, por exemplo, com essa visão tão aberta e bonita. Talvez seja por estarmos aqui que toda essa nossa forte ligação tenha sido facilitada. Que continuemos a nos encontrar e a conversar também com as pessoas novas que estão chegando, que elas sejam acolhidas e sintam também que fazem parte dessa grande família do Museu Nacional/UFRJ!
Este sempre foi e continua sendo um lugar especial, de pessoas especiais!
Até logo,
Claudine Borges
Secretária do Programa de Pós-Graduação em Arqueologia (PPGArq).