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Fragmentos de cerâmica atribuídos a Mestre Vitalino ganham identificação especializada

Quinze peças do acervo etnográfico resgatado do Museu Nacional/UFRJ passaram por uma criteriosa sessão de identificação para confirmar a hipótese de autoria de Mestre Vitalino, ceramista pernambucano que imortalizou o cotidiano do sertão nordestino. A análise contou com a presença de Vitalino Neto, neto do artista e representante da terceira geração de ceramistas da Família Vitalino, e de Henrique Cruz estudioso da obra e museólogo que trabalha na Fundação Joaquim Nabuco. Juntos a servidoras e estudantes do Museu, eles colaboraram para distinguir quais fragmentos foram, de fato, modelados por Mestre Vitalino, por seus familiares ou por ceramistas de localidades vizinhas a Caruaru, em Pernambuco. 

Sessão de identificação de peças do Acervo Regional do Museu Nacional. Foto: Diogo Vasconcellos (MN/UFRJ)
Sessão de identificação de peças do Acervo Regional do Museu Nacional. Foto: Diogo Vasconcellos (MN/UFRJ)

A atividade integra a pesquisa “Memória e Reconstrução das Coleções Antropológicas ‘Populares’ do Museu Nacional”, coordenada pela professora Renata Menezes, do Laboratório de Antropologia do Lúdico e do Sagrado (Ludens) e foi realizada em conjunto com a equipe curatorial do Setor de Etnologia e Etnografia (SEE), responsável pelo resgate e pela guarda da Coleção Regional. Essa Coleção foi formada entre as décadas de 1920 e 1950, com representações dos diferentes modos de vida nas diversas regiões do Brasil. A identificação contou com a contribuição da bolsista de iniciação científica Mayara Pires, integrante do Ludens e estudante de História na Uerj, e de Paula Aguiar, gerente das coleções antropológicas do SEE.

Confirmada na sessão de identificação a autoria de Mestre Vitalino. Foto: Handerson da Silva Oliveira (LCCR/MN/UFRJ)
Confirmada na sessão de identificação a autoria de Mestre Vitalino. Foto: Handerson da Silva Oliveira (LCCR/MN/UFRJ)

“Todos nós ficamos emocionados com os resultados”, avalia Renata Menezes. Ela lembra que o cuidado das equipes com as obras da Família Vitalino comoveu Vitalino Neto e Henrique Cruz. Para Renata, o momento é simbólico por representar uma conexão entre diferentes tempos históricos e gerações — desde a chegada das peças ao Museu Nacional, décadas atrás, passando pelo trabalho de diversos pesquisadores, pelo esforço da equipe de Resgate, até a curiosidade de uma bolsista que reconheceu traços em uma fotografia antiga. “Foi essa cadeia de olhares atentos, de diferentes pessoas e instituições cooperando, que permitiu uma descoberta de grande impacto afetivo e histórico. É fazer ciência como deve ser feita: de forma colaborativa, intergeracional e em diálogo com a sociedade”, comemora a coordenadora do Ludens. 

Colaboração interinstitucional no processo de identificação 
Equipe que participou da sessão de identificação em dezembro de 2024. Foto: Diogo Vasconcellos (MN/UFRJ)
Equipe que participou da sessão de identificação em dezembro de 2024. Foto: Diogo Vasconcellos (MN/UFRJ)

Vitalino Neto estava no Rio de Janeiro em dezembro de 2024 para um evento promovido pelo Museu de Folclore Edison Carneiro, que colaborou com a pesquisa, e informou a equipe do Ludens sobre a presença do ceramista na cidade. Ele aproveitou um intervalo para contribuir com a identificação dessas peças no Museu Nacional. 

“A escuta ativa de detentores do saber tradicional e a catalogação participativa são práticas consolidadas no Setor de Etnologia e Etnografia. São essas pessoas que têm autoridade para nos transmitir informações precisas”, destaca Paula Aguiar, que acompanha esse material desde o início do Resgate do Acervo Científico do Museu Nacional/UFRJ. 

Vitalino Neto, Paula Aguiar e a estudante Mayara Pires. Foto: Diogo Vasconcellos (MN/UFRJ)
Vitalino Neto, Paula Aguiar e a estudante Mayara Pires. Foto: Diogo Vasconcellos (MN/UFRJ)

Ao final da tarde de trabalho, foram identificadas: uma peça de Mestre Vitalino, três da Família Vitalino, cinco peças da cidade pernambucana de Canhotinho, uma peça com a possibilidade de ser de Tracunhaém, uma peça que não pôde ser apresentada fisicamente, devido ao processo de higienização, mas que tem chances consideráveis de ser de Mestre Vitalino ou de sua família. A sessão permitiu identificar peças fundidas pelo incêndio e requalificar os dados do antigo Livro de Tombo. Foram reconhecidas as obras de Vitalino Pereira dos Santos, o Mestre Vitalino: “Vaqueiros com Bois” (ou “Três Homens a Cavalo Conduzindo um Boi”); fragmentos de “Casal em Viagem” (ou “Mulher Tirando Bicho de Pé”), identificados pelo detalhe do coque; além de fragmentos de “Homem Tirando Leite de Vaca” e “Tropeiro com Três Mulas”. 

As peças foram incorporadas ao acervo do Museu entre as décadas de 1940 e 1950, por meio de doações feitas por Luiz Carlos Palmeira e pelo artista plástico pernambucano Augusto Rodrigues. A coleção organizada por Rodrigues para a 1ª Exposição de Folclore reúne exclusivamente obras de Pernambuco, incluindo cidades como Caruaru, Arco Verde, Jatobá, També, Gravatá, Pesqueira e Recife. 

“Essa colaboração nos permitiu aprofundar o conhecimento sobre esse acervo. Sempre tivemos a expectativa de requalificar esse material que resgatamos do Paço de São Cristóvão após o incêndio de 2018. É um trabalho de longa duração, com muitas pessoas envolvidas. Esperamos que cada camada de história seja documentada e reconhecida”, reforça Michele de Barcelos da equipe do Setor de Etnologia e Etnografia, que também trabalhou no Resgate.

Resgate da Coleção de Cerâmica Regional pelo operário da Congrejato Moisés Silva e Michele Agostinho da SEE/MN em 24/11/2018. Foto: Acervo pessoal da Michele
Resgate da Coleção de Cerâmica Regional pelo operário da Congrejato, Moisés Silva, e Michele Agostinho da SEE/MN em 24/11/2018. Foto: Acervo pessoal da Michele
 Pesquisas e experiências contribuindo para a identificação 

As informações fornecidas por Vitalino Neto e Henrique Cruz já estão sendo aplicadas na identificação de outros fragmentos da Coleção Regional. Ela foi formada com influência da antropóloga Heloísa Alberto Torres, ex-diretora do Museu Nacional. “São peças representativas de todas as regiões do país, com os elementos considerados mais típicos, sendo um material muito bonito e representativo da arte popular brasileira”, avalia Renata Menezes. 

A parte referente a Vitalino da pesquisa “Memória e Reconstrução” integra um conjunto de projetos conduzidos sob supervisão técnica do Setor de Etnologia e Etnografia. O acervo resgatado está distribuído em 517 caixas, organizadas por tipo de material: peças e fragmentos de madeira, tecido, papel ou palha; de cerâmica ou lítico; de metal; osteológicos (ossos) ou malacológicos (conchas). A higienização e individualização dos itens está em curso, envolvendo milhares de fragmentos. 

Como o acervo está sendo inventariado, novas descobertas podem levar à reinterpretação de dados anteriores. Nesse processo, a bolsista Mayara Pires atuou na identificação das peças e na reconstrução da história da Coleção. Antes de iniciar sua pesquisa, ela e outros bolsistas de iniciação científica vinculados ao Ludens visitaram instituições com acervos de cultura popular, como o Museu de Folclore Edison Carneiro no Catete, e estudaram obras de referência como “O Povo em Coleções: A Coleção Regional do Museu Nacional — 1920-1950”, de Carla Costa Dias. 

Também fundamenta as análises atuais a fase inicial da pesquisa “Coisas Sagradas, Coisas Cotidianas”, realizada pelo Ludens na reserva técnica do SEE, entre 2015 e 2018. Nessa etapa, foi feita a localização das peças da Coleção Regional nas estantes, comparando informações com o Livro de Tombo do Museu Nacional. Alguns detalhes chamaram atenção e foram fotografados informalmente, antes da etapa de fotografia profissional que estava prevista, mas não conseguiu ser realizada. Essas imagens, incluindo registros de obras de Mestre Vitalino, servem de base para o processo de identificação, ao serem comparadas com fotografias atuais, registradas com o apoio do Laboratório Central de Conservação e Restauração (LCCR) do Museu Nacional. 

Aprendizados interdisciplinares e olhar atento 

Entre as técnicas utilizadas, destaca-se o decalque — que permite transpor objetos tridimensionais para uma base cartesiana, facilitando a comparação de detalhes formais, como olhos, orelhas, chapéus e focinhos nas figuras. “Esse método é essencial diante de um desafio recorrente: a dissociação entre objetos e informações. Identificar, por exemplo, se um boi é de autoria de Vitalino ou de outro ceramista exige uma análise muito cuidadosa”, explica Paula Aguiar.

Para o evidenciamento de linhas para a feitura do decalque, as fotografias foram editadas. A foto debaixo é amadora e registra peça do Mestre Vitalino, registrada antes de 2018. Na que está acima, o fotógrafo Handerson Oliveira registrou o fragmento buscando o mesmo ângulo
Para o evidenciamento de linhas para a feitura do decalque, as fotografias foram editadas. A foto debaixo é amadora e registra peça do Mestre Vitalino, registrada antes de 2018. Na que está acima, o fotógrafo Handerson Oliveira registrou o fragmento buscando o mesmo ângulo

Mayara relata aprendizados técnicos adquiridos e o olhar atento para a obra do Mestre Vitalino: “Logo no início, o pessoal da Arqueologia nos ensinou a escutar o som dos objetos e a sentir a temperatura para distinguir cerâmica de ossos, por exemplo. Abrimos uma a uma as mais de 500 caixas, anotando tudo. Claro que com os outros estudantes e demais integrantes da equipe. Na fase de foco em Vitalino, eu observava fragmento por fragmento e avaliava: ‘Esse pode ser do Vitalino ou alguém do mesmo contexto’. E mandava fotos para a professora Renata adiantar a avaliação dela. Acho curiosa a coincidência de ter ficado nessa pesquisa, entre tantas outras que estão sendo desenvolvidas pelos outros estudantes. Sou de Padre Miguel, amo Carnaval e conheci o Mestre Vitalino pelo enredo da Mocidade, minha escola do coração. Aqueles olhinhos e aquela boca tão característicos já tinham me marcado”. Mayara destaca que o aprimoramento do olhar após todos os estudos da bibliografia e das discussões foram muito importantes para contribuir com a identificação desse material.

“Fiquei profundamente feliz com a visita do neto do Vitalino e do Henrique Cruz para identificar essas peças, depois de tanto trabalho que todos nós tivemos. Foi um marco! Perceber que nosso trabalho tem impacto, que estamos devolvendo ao Museu algo que antes parecia perdido, é gratificante. Mesmo com peças queimadas ou fundidas, é um enorme avanço. São anos de trabalho minucioso: limpar, pesar, medir, registrar, verificar cada detalhe… E esse resultado só foi possível com o esforço coletivo da equipe do Museu, dos parceiros e dos estagiários envolvidos”, conclui a bolsista de iniciação científica. 

 

‘Arqueologia do Resgate’ no CCBB em 2019 
Abertura da exposição em 2019. Foto: Diogo Vasconcellos (MN/UFRJ)
Abertura da exposição em 2019. Foto: Diogo Vasconcellos (MN/UFRJ)

Já em 2019 foi realizada a exposição “Arqueologia do Resgate” no Centro Cultural Banco do Brasil (CCBB). Ela foi organizada pela equipe do Resgate de Acervos do Museu Nacional, da qual a professora Claudia Rodrigues Carvalho era coordenadora. As servidoras Michele de Barcellos, Paula Aguiar e Rachel Lima participaram enquanto membros da equipe curatorial do SEE para o acervo etnográfico exposto na ocasião, incluindo a Coleção Regional. 

Cerâmicas da Coleção Regional resgatadas foram expostas na 'Arqueologia do Resgate'. Foto: Max Velon
Cerâmicas da Coleção Regional resgatadas na exposição ‘Arqueologia do Resgate’ no CCBB. Foto: Max Velon
Curiosidade 

Durante a apuração desta matéria, Mayara Pires contou que, na infância, participou de uma atividade escolar na qual seu grupo escolheu visitar o Museu Nacional/UFRJ. Ela estudava com a filha do servidor Rogério Bistene e, naquele dia, conheceu os bastidores do Paço de São Cristóvão, onde sonhou, pela primeira vez, em pesquisar no Museu. Na foto, aparecem Aline Luna, Laura Bistene, Mayara Pires, Maryanna Mendes e Eloah Cardozo posando com o icônico meteorito Bendegó. Veja: 

 

Saiba mais: 

Livro “O Povo em Coleções: A Coleção Regional do Museu Nacional — 1920-1950” de Carla Dias, publicado pela Editora UFRJ, o PDF está disponível gratuitamente. Acesse. 

 

Matéria publicada no Harpia, edição 32, abril de 2025. 

 

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