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Vera Huszar: excelência e sensibilidade nos seus 50 anos de pesquisas

A professora Vera Huszar. Foto: Diogo Vasconcellos (MN/UFRJ)
A professora Vera Huszar. Foto: Diogo Vasconcellos (MN/UFRJ)

Ainda lembro da experiência fantástica e emocionante ao ir pela primeira vez pesquisar um lago amazônico. Já do aviãozinho bimotor dava pra ver de perto a floresta tão impactante com bandos de araras voando entre as sumaúmas tão altas, que sobrepassam as outras árvores. Fui para a Amazônia pesquisar os impactos do rejeito de bauxita sobre o fitoplâncton do Lago Batata, em Porto Trombetas no Pará. Analisei os dados na minha tese de doutorado em Ecologia e Recursos Naturais, que defendi em 1994, na Universidade Federal de São Carlos. Nessa época, eu já trabalhava como professora do Museu Nacional/UFRJ. E sigo estudando este lago até hoje. 

Neste relato, vou buscar resumir para vocês alguns pontos desses meus 50 anos de carreira, iniciada como pesquisadora na Universidade Católica de Pelotas, em 1976. Vim para o Rio de Janeiro, assim que concluí o mestrado na Universidade Federal do Rio Grande do Sul, no início de 1978. A partir das indicações de lugares para pesquisar, escolhi fazer um estágio no Museu Nacional onde segui meu estudo sobre algas, mas também auxiliava a professora Margareth Emmerich num projeto FINEP. Em seguida, surgiu a oportunidade de dar aulas como professora-colaboradora no Museu. Com a reforma na carreira das universidades federais, no início da década de 1980, fui incorporada como professora-assistente. Segui a carreira e, desde 2011, sou professora-titular concursada. 

 

Avanço pelas conexões 

Minhas pesquisas acompanham as necessidades atuais. Coordeno projetos com instituições na Argentina, Estados Unidos, Holanda, Dinamarca e Uruguai. A troca de contribuições com diferentes redes é fundamental para o avanço dos estudos. Foco na ecologia aquática planctônica, abrangendo balanço de carbono, controle de florações, diversidade, diversidade funcional, ecologia do fitoplâncton, interações no plâncton, macroecologia e recuperação de sistemas aquáticos em estuários, lagoas costeiras, lagos de inundação, reservatórios, rios e sistemas de criação de peixes, a maioria em regiões tropicais, mas também estudei lagos temperados glaciais dos Estados Unidos em meu pós-doutorado no estado de Nova Iorque. 

Sobre a pesquisa em Porto Trombetas, pela qual iniciei este relato, cabe especificar que entre 1979 e 1989 esse lago amazônico, no município de Oriximiná, foi impactado por rejeito de bauxita (minério do alumínio). Estudo esse lago desde meu doutorado, publicando atualizações que evidenciam aumento de temperatura e mudanças nas comunidades aquáticas locais. Monitoramos a área, em parte da qual foi implementado um programa de restauração. Resultados de longo prazo em regiões tropicais são raros e valiosos. 

São inúmeras contribuições. Foi interessante participar, por exemplo, do projeto Brasil das Águas, implementado por um casal – ele piloto, ela fotógrafa – em parceria com a Embrapa e várias universidades brasileiras. Foi mapeada a qualidade da água através de coletas feitas desde um pequeno hidroavião em voo rasante, em todo o território brasileiro. Foi revelada abundância de água boa qualidade especialmente no centro-oeste e na Amazônia, mas água com qualidade comprometida sobretudo nas regiões mais populosas ao longo de toda a costa. Esse projeto, além de importante, é belíssimo, ilustrado por fotografias de diferentes partes do país. 

Agora, mais para o fim de minha carreira, tenho me dedicado a estudos relacionados à recuperação de lagos, como a mitigação de florações de algas potencialmente tóxicas – as cianobactérias resultantes do aporte excessivo de esgotos e fertilizantes nos corpos e cursos de água. Em parceria com colegas da Holanda e de outras universidades brasileiras, avaliamos o uso de compostos que possibilitem minimizar, a baixo custo, esse que é um dos grandes desafios no mundo todo. Vale lembrar que em todos estes projetos tenho sempre como parceiras minhas colegas do Laboratório de Ficologia, Departamento de Botânica. Em cinco décadas de pesquisa, fico feliz em ver resultados como esses e continuo animada, especialmente na formação de recursos humanos em todos os níveis, da iniciação científica ao pós-doutorado.  

‘É para frente que se anda’ 

As pessoas que passaram ou que permanecem na minha vida pessoal e profissional me transmitem tanta sabedoria e sou grata por isso. Aproveito este espaço para compartilhar com você, leitor do nosso boletim Harpia, alguns conselhos que recebi e que espero possam te ajudar de alguma forma também. 

Ainda me lembro que, quando fui estudar na Argentina, com 22 anos, meu pai, um gaúchobrizolista, chegou na porta do ônibus com aquele jeitão dele e me disse: “Minha filha, vou te dizer duas coisas: Luta pelos teus direitos porque ninguém vai lutar por eles, e também, daqui para frente tu não podes mais ser tão chorona”. O primeiro eu consegui, mas o segundo ainda não, mesmo com uns 30 anos de terapia! Foram muitos desafios ao longo desses anos e me lembrei disso com carinho, especialmente no momento de luto pelo Museu Nacional, em um dos momentos que mais precisei na minha vida colocar esses e tantos conselhos em prática. Naquele momento, eu estava como presidente da SAMN. Na noite do fatídico incêndio, ao ligar chorando e triste para a minha mãe, ela me disse: “Não fica assim, minha filha. Tudo passa e é para frente que se anda”. Ela tinha 100 anos e acompanhou até seus 103 anos as conquistas que todos nós, juntos, conseguimos para a reconstrução do Museu. E conquistamos muita coisa importante para estarmos nesta fase atual, concordam? Realmente, é para frente que se anda! 

 2018 foi o ano em que eu não consegui publicar nenhum trabalho acadêmico. Foi zero mesmo. Nos primeiros oito meses, foi um momento de adaptação às rotinas administrativas da SAMN e contei muito com meu vice, Luiz Fernando Dias Duarte, que já tinha atuado diretamente em diferentes cargos. Era uma fase de aprendizado e esperança de dias melhores para o Museu, porque eu tive a oportunidade de assinar o contrato com o BNDES, dias antes da tão bonita festa do bicentenário do Museu Nacional. Era algo que já vinha sendo negociado há tanto tempo por outras gestões da SAMN e do Museu.

Na celebração dos 200 anos do Museu Nacional, as professoras Verz Huszar e Cláudia Carvalho. Foto: Andre Telles
Na celebração dos 200 anos do Museu Nacional, as professoras Verz Huszar e Cláudia Carvalho. Foto: Andre Telles

Entre os avanços previstos estava incluída a segurança do prédio histórico contra incêndios. Mas não deu tempo desse recurso chegar. Na noite de 2 de setembro, soube da triste notícia pela televisão e, após ligações com o Luiz Fernando, familiares e amigos, chamei meus dois guris e fomos para o Museu. Eu precisava estar lá. Muitos de nós voltamos no dia 3, e a gente não parou em nenhum momento. Dentro de uns três dias, já existia uma conta bancária da SAMN para as pessoas contribuírem com a doação elas pudessem. Foi muito bonita a mobilização. Toda essa ajuda, vinda de tanta gente do Brasil e do exterior, nos ajudou a manter nosso dia a dia para ações emergenciais. A SAMN, que era um jovem adolescente, precisou evoluir consideravelmente em pouquíssimo tempo para ficar melhor estruturada para ajudar o Museu Nacional, cumprindo sua missão! Ao mesmo tempo, começaram a chegar também contribuições de milhões, como a do Governo da Alemanha e dos demais parceiros, incluindo toda uma reformulação do contrato com o BNDES para as novas necessidades. Precisávamos de agilidade e conhecimentos técnicos para receber os recursos e cumprir todas as normas necessárias. Conseguimos passar com tranquilidade por todas as fiscalizações. 

Logo precisamos contratar uma pessoa com experiência para gerenciar a SAMN. Sorte a nossa que encontramos a tão competente e dedicada Rose Orth, que continua à frente de uma equipe qualificada. Foram muitas conquistas importantes! Nesses dois anos na presidência, posso dizer que fiquei feliz e orgulhosa por entregar a SAMN como uma jovem adulta para o Luiz Fernando dar continuidade ao trabalho que desenvolvemos juntos com a nossa diretoria. Atualmente, a Mariângela Menezes está à frente da nossa associação, rumo ao amadurecimento. Esse foi o primeiro e último trabalho do mundo corporativo do qual fiz parte. Não quero mais. Meu perfil realmente é acadêmico. E pensar que, em 2017, resolvi me candidatar à presidência por admirar o trabalho que os professores Clovis Castro e Débora Pires já vinham realizando na SAMN anos antes, mas eu nem imaginava os desafios que estavam por vir. Nenhum de nós, não é mesmo? 

Na mais recente comemoração de aniversário da SAMN, com quadro doado por Vik Muniz ao acervo: Silvia Reis, Vera Huszar, Mariângela Menezes, Sérgio Alex e Luciana Carvalho. Foto: Diogo Vasconcellos (MN/UFRJ)
Na mais recente comemoração de aniversário da SAMN, com quadro doado por Vik Muniz ao acervo: Silvia Reis, Vera Huszar, Mariângela Menezes, Sérgio Alex e Luciana Carvalho. Foto: Diogo Vasconcellos (MN/UFRJ)

 

Olhar especial para o Horto Botânico 

Neste momento, estou me dedicando à requalificação do Horto Botânico, como voluntária, sendo um compromisso meu com a Direção do Museu. Com mais de 40 mil metros quadrados, são muitos detalhes e desafios para conseguir os recursos. Mas estamos avançando pouco a pouco. Junto a um grupo de trabalho, diagnosticamos as necessidades, trabalhamos nos projetos básicos para captar recursos e já foram iniciadas melhorias. O ETU, que é o Escritório Técnico da Universidade, desenvolveu o projeto básico para a reforma do gradil e é sempre importante agradecê-los por toda a dedicação em nos apoiar. Em um dos projetos em andamento, já recebemos visitas escolares, estamos por iniciar a construção de uma rota acessível para que as pessoas com deficiência tenham autonomia para chegar até a Biblioteca Central, por exemplo. Estamos avançando com a participação de pessoas do Museu e também com apoiadores financeiros externos, sempre essenciais. Vamos juntos cuidar dessa nossa joia rara? Ainda há muito o que fazer. 

Pessoas que me inspiram 

Reforçando todo meu reconhecimento pelas pessoas que me inspiram ao longo da vida, agradeço imensamente a todos os colegas professores e técnicos, e aos estudantes que me encorajaram a ousar e a avançar nas pesquisas. Coragem, ousadia, rede de contatos e muita dedicação para aperfeiçoar mais e mais são essenciais na vida dos pesquisadores. Ano passado, em agosto, fiquei feliz ao receber a notícia de estar entre os 95 pesquisadores do Brasil na área de Ecologia e Evolução listados como os melhores dessa área pelo portal acadêmico Research.com. Com 9.884 citações, naquele momento, fiquei na posição 44. Na lista de todas as áreas, fiquei entre os 50 melhores posicionados da UFRJ. Um destaque especial é o meu trabalho “Towards a Functional Classification of the Freshwater Phytoplankton” (em busca de uma classificação funcional do fitoplâncton de água doce, em tradução livre), veiculado na publicação científica “Journal of Plankton Research” da inglesa Oxford Academic. 

No início da vida acadêmica, eu ficava feliz em encontrar com pesquisadores cujas linhas de pesquisa eu seguia ou que os admirava de alguma forma. Atualmente, os jovens pesquisadores me param nos eventos para fotografar comigo e isso me deixa muito emocionada, ao perceber que influenciei duas gerações de cientistas. Inclusive, já tenho netos científicos. Este ano recebi uma medalha super importante da Sociedade Internacional de Limnologia, única dedicada às águas interiores e que existe desde 1922. Em meu discurso, a dediquei a meus estudantes porque, para mim, a formação de recursos humanos é meu grande legado. 

A razão fundamental 

Concluo este texto com uma mensagem especial aos estudantes do Museu Nacional. Para mim, vocês são a razão fundamental da nossa instituição. Temos quatro pilares: as coleções, a pesquisa, o ensino e as exposições. São vocês, os estudantes, que me instigam a percorrer novos caminhos e avenidas, e suponho que muitas vezes vocês não têm noção da importância que têm na vida dos professores. Vocês estão em uma instituição fantástica, com pesquisadores reconhecidos em todo o mundo. Então, aproveitem tudo que puderem por aqui, sejam críticos, conversem sobre diferentes pontos de vista, aumentem suas redes de contato com colegas de outros cursos e levem suas pesquisas e nosso Museu pelo mundo. E, principalmente, persistam ao chegarem na vida profissional, pois sabemos que as oportunidades de trabalho não são proporcionais à qualidade dos recursos humanos que temos. 

Encorajo vocês reforçando a frase que ouvi da minha mãe, com tanta sabedoria: “É para frente que se anda”!  

Persistam sempre! 

 Com carinho, 

Vera Lúcia de Moraes Huszar 

Professora-titular do Departamento de Botânica do Museu Nacional/UFRJ. 

 

Relato da edição Nº 29 do Harpia.

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