Nesta entrevista, Fabrício Brollo, ex-gerente do contrato entre o Museu Nacional e o BNDES, nos conduz aos bastidores de uma parceria estratégica que contribuiu para moldar, nos últimos 5 anos, a nossa reconstrução. Ele relembra os desafios superados e aponta alguns caminhos que precisam ser percorridos para conquistarmos a sustentabilidade futura da instituição, fortalecendo um legado que transcende o tempo.

Harpia – Para começar, cabe lembrar aos leitores que o BNDES já tinha assinado um contrato com a SAMN em 5 de junho de 2018. E, depois de setembro de 2018, você acompanhou todo o processo de reformulação do contrato para o período de reconstrução. Como é para você hoje olhar para trás e perceber a importância de todo esse empenho em contribuir com o Museu Nacional?
Fabrício Brollo – Em 2018, eu trabalhava no Departamento de Economia Criativa, que na época fazia todo o apoio à área museológica. Nesse primeiro momento eu ainda não era o gerente do contrato do Museu Nacional, mas estava por ali, ao lado dos meus colegas, acompanhando os debates e todos os esforços para a modernização e a segurança do prédio histórico, incluindo as medidas preventivas de combate a incêndios. A proposição de apoio ao Museu Nacional saiu acrescida em quase o dobro do solicitado, justamente para incluir no apoio a implantação dos sistemas de prevenção e combate a incêndio. Entretanto, infelizmente, esse processo de modernização e segurança foi atropelado pelo fatídico incêndio.
Harpia – E como se deu essa mudança?
Fabrício Brollo – Já no dia seguinte, em 3 de setembro de 2018, recebi a tarefa de mudar completamente essa chave do contrato para a realidade da reconstrução. Era essencial que se desse flexibilidade e margem para os gestores do Museu Nacional executarem aqueles trabalhos necessários à emergência que estava posta, mesmo ainda não se tendo uma visibilidade plena do que seria exatamente esse plano de ação. Iniciamos com uma série de reuniões estratégicas entre o BNDES, a SAMN e a Direção do Museu para que conseguíssemos fechar no próprio ano a reformulação do contrato. Na sequência, a Vale e a Unesco vieram e, em conjunto com o Museu Nacional, formaram a estrutura de governança do Projeto Museu Nacional Vive.

Harpia – Gostaria que você contasse brevemente para os leitores sobre a sua participação inicial nessa estrutura de governança do Projeto Museu Nacional Vive. Quando ela foi iniciada?
Fabrício Brollo – A formação da governança do Projeto Museu Nacional Vive passou por algumas etapas. A primeira foi a formação da estrutura de governança com a chegada da Vale, sendo iniciadas as trocas de ideias e sugestões entre a Reitoria da UFRJ, a Vale e o BNDES sobre as ações que deveriam ser feitas nesse novo contexto. Foi um trabalho árduo e intenso de todo mundo, mas absolutamente necessário para que o Museu se adaptasse à nova realidade, que infelizmente ele passou a ter. Naquele momento, constituída a governança, o BNDES aceitou prontamente o convite de assumir a coordenação do Grupo de Trabalho de Sustentabilidade, trabalho para o qual fui designado. Era consenso da necessidade de já pensar o Museu Nacional olhando para o período pós-reconstrução. Trabalhar para que o Museu Nacional seja, plenamente sustentável quando estiver reaberto.
Harpia – Sobre esse Grupo de Trabalho de Sustentabilidade, lembro que vocês promoveram até no YouTube do Museu encontros abertos à sociedade, com apresentações e debates envolvendo diferentes especialistas. Qual aspecto você gostaria de destacar desse período da sua gestão nesse GT que pensa o futuro do Museu?
Fabrício Brollo – Existem duas grandes contribuições que podem ser citadas. A primeira é de que o Museu, que sempre teve uma relação grande com a sociedade, principalmente com o seu público visitante, passou a ter a necessidade de construir relacionamento também com apoiadores financeiros, para além dos entes governamentais. Então, os seminários foram feitos no sentido de mostrar essa abertura do Museu à sociedade, incluindo a escuta e o pedido de ajuda para essas necessidades futuras. O segundo ponto é que nós temos no país instrumentos e mecanismos para o apoio à cultura, mas que, pelas suas características, são instrumentos de curto prazo. As leis de incentivo não só a federal, mas também as estaduais e municipais possibilitam a captação de recursos somente no exercício. Quando vira o ano, o desafio continua. Portanto, a sustentabilidade trabalhada e discutida com o Museu Nacional, durante a minha gestão no GT de Sustentabilidade, buscava usar, dentre os seus instrumentos, os fundos patrimoniais. É uma construção de longo prazo, que demanda tempo e pró-atividade. Se for bem feita e com resiliência, essa construção permite criar um fundo que traz perenidade e previsibilidade de recursos, pelo menos para parte das necessidades financeiras do Museu Nacional. E, para além do Museu Nacional, essa é uma cultura que a gente precisa transformar no país. Destaco que já existe um trabalho no BNDES, desde 2014, promovendo o desenvolvimento desse tema para estimular os fundos patrimoniais nas instituições culturais. Temos toda a confiança de que o Museu Nacional tem pessoas dedicadas para implementar essa estratégia.

Harpia – Na sua percepção, qual é a entrega mais importante do Projeto Museu Nacional Vive para a sociedade durante o período que você participou?
Fabrício Brollo – A entrega mais relevante para a sociedade é a garra e o empenho do corpo social, dos servidores públicos, que estão ali dedicados para poder resgatar essa instituição, que é tão importante para o país. Fica para todos nós o exemplo dessa perseverança. Os servidores tiveram de sustentar uma bandeira importante pela ciência, pela história, pela cultura e pela educação. Estão de parabéns por terem mantido isso de uma maneira tão viva e isso é inspirador.
Harpia – Você, agora, acaba de deixar o Comitê Executivo do Projeto Museu Nacional Vive em função de mudanças internas no BNDES. Como você se sente agora que não está mais envolvido nesse processo de reconstrução?
Fabrício Brollo – Foram cinco anos dessa interação direta com o Museu Nacional, sendo um dos trabalhos que mais demandou dedicação, pesquisando informações e soluções. Já sinto uma sensação de saudade, sem falar que participar desse desafio da reconstrução foi um privilégio enorme. Saio com a tranquilidade de que tudo está em boas mãos, com todos dedicados pelo Museu Nacional. Aqui pelo BNDES, os colegas que me sucederam têm toda a capacidade técnica e conhecimentos para continuar contribuindo. Como cidadão, continuo acompanhando e torcendo pela total reconstrução do Museu Nacional.
Harpia – E, pessoalmente, o que você espera encontrar no Museu Nacional assim que ele for reaberto?
Fabrício Brollo – Espero encontrar o meu próprio passado, relembrando quando eu o visitava na infância, e, anos depois, com minha esposa e meu filho. O Bernardo ficava encantado, principalmente com os dinossauros e fósseis; e tenho certeza que teremos novas experiências de encantamento. Da mesma forma, quero reencontrar meu passado profissional, quando contribuí com o processo de reconstrução. Quero encontrar novamente uma instituição que quer se manter viva, ativa, pensando sobre o seu progresso. Acredito que seja isso que trouxe o Museu Nacional para os seus 205 anos de existência.
Harpia – Por falar em família, você teve a oportunidade também de levar seu filho Bernardo para o evento da Cápsula do Tempo do Museu Nacional, que será reaberta daqui 50 anos. Como foi esse dia para vocês?
Fabrício Brollo – Esse dia foi muito especial para nós dois porque estávamos com vocês, que estão trabalhando na reconstrução do Museu. Sempre gosto de enfatizar que nós, como parceiros, estamos mais para dar um apoio. Eu, humildemente, participando do apoio fornecido pelo BNDES, estava representando esse lado. E ele, quando tiver seus 58 anos, quando a Cápsula for reaberta, vai relembrar que nossa história está ligada ao Museu Nacional e a este momento de reconstrução.

Harpia – Isso é bem especial. E que mensagem final você gostaria de deixar para o corpo social do Museu Nacional/UFRJ?
Fabrício Brollo – Eu deixo um agradecimento, enquanto cidadão, pelo empenho dos servidores do Museu Nacional que, passando por tudo o que passaram, continuam a trabalhar com empenho. Pude ver de perto o quanto foi duro em todos os aspectos. Mas é importante celebrar as conquistas, mantendo sempre a memória do dia 2 de setembro de 2018, porque essa data foi dolorosa e não deve ser repetida.